Texto sob revisão

Arteterapia Humanista e

Desenvolvimento Espiritual

 

 

 

 

Mini curso ministrado durante o

III Simpósio de Psicologia do Triângulo Mineiro ,

Uberaba , 29 e 30 de setembro e 01 de outubro de 2000.

 

 

Arteterapia Humanista e Desenvolvimento Espiritual

Dircenéa De Lázzari Corrêa

 

 

Já tenho apresentado o meu trabalho clínico em outros eventos científicos, mas pensei que, para este evento, seria uma boa oportunidade rever e atualizar o que tenho sistematizado, na esperança de incluir agora a perspectiva do espiritual.

O 3º Milênio tem sido considerado como um marco, para acrescentarmos no nosso panorama de vida, a dimensão do espiritual.

Mas o que vem a ser o espiritual ?

Como, quando , por que e para que

as pessoas se despertam para o espiritual?

Fiquei mentalmente preparando um balancete dos meus movimentos durante minha vida, na tentativa de rastrear as principais que me marcaram, que provocaram em mim mudanças para que eu me despertasse para o espiritual. Fui revendo minha trajetória... Fui localizando as minhas transformações pessoais e profissionais, que me ajudaram a acomodar a espiritualidade nas mais diversas nuances do meu viver.

Lembrei de um comentário de Henriette Morato no final de uma aula que apresentei para os alunos do 5º ano de psicologia da USP-SP, no ano de 1995 : "Ela não trouxe tudo", no sentido de que eu não me trouxera inteira. Estava claro para mim que ela se referia a uma grande mudança, talvez a principal, que realizei em minha vida : uma Dircenéa mais espiritualizada, mais distante das ciências e mais próxima das artes ! A partir de então, tomei o comentário de Henriette como um desafio, que me instigou a me lançar em mais uma caminhada, a de uma vivência mais plena da minha espiritualização. Tenho laboriosamente incluído na minha prática psicológica o meu lado espiritual, e tem sido tão gratificante quanto conptemplar esta belíssima tela de Monet, Canteiro de Íris no Jardim do Artista (1900) . Incluir o espiritual é como caminhar na estreiteza de um caminho de terra, mas rodeada por lindas flores lilases, que dançam ao sabor da brisa, para entregarem ao mundo a alegria de suas cores e a doçura de suas fragrâncias...

Quando Lucas me convidou para estar aqui com voces, vislumbrei no convite uma oportunidade para refletir mais profundamente sobre minhas semeaduras e colheitas... Talvez pudesse ser um bom momento para avançar um pouco mais na minha integração com o espiritual...

Sentada na cozinha de minha casa, enquanto cuidava das goiabadas domingueiras, escutando o borbulhar do doce, lembrava do sentido do Ritual do Chá, escutar o silêncio interior... Usufruir deste silêncio, tal como um samurai usufrui descansando assim das batalhas. É um momento de recolhimento e acolhimento. E no silêncio, do recolhimento, voltada para mim mesmas, fui prestando atenção onde o borbulhar da água fervente tocava em mim... Fui recolhendo o que percebia e acolhendo, acalentando como se fosse um doce tesouro, tão vermelho quanto a goiabada que borbulhava... Senti, através de mim, passar a força plasmadora da Natureza durante a época da Primavera e do Outono... Era momento de florir, enfeitando minhas idéias e projetos, recriar sobre o já havia criado ! [ Fig. Monet , "Meda de Feno ao Por do Sol (1891) ] Era momento de frutificar, espalhando sementes, que pudessem germinar em corações amantes da Arte e sedentos de espiritualidade ... [ Fig. "Medas de Feno no Outono ao Por do Sol(1891)" ]

Espero conseguir trazer a voces um pouco das minhas buscas e conquistas mais significativas !

Comecei a me sentir na Primavera fértil de idéias, com uma vontade tão firme quanto a terra, de me preparar para a apresentação da maneira que tenho vivido e realizado a Arteterapia. Fui me preparando escrevendo sobre a apresentação mesmo sabendo que na hora eu falaria coisas diferentes do que havia escrito, fui me sustentando pelo desejo e pela curiosidade de estar no contexto real, encontrar-me com as pessoas presentes, rever conhecidos, conhecer novas pessoas e conhecer melhor as pessoas com quem iria me encontrar.

Neste momento parece que realizei uma "abordagem" ou cheguei "à beira ou à borda" (Ferreira, 1994,p.4) do encontro com as pessoas que estariam no III Simpósio. Comecei então a me preocupar com o efeito de abordar as pessoas, ou melhor comecei a me ocupar, imaginativamente, com os possíveis resultados das intenções de meu agir. De modo algum queria que meu agir provocasse um "abalroar para tomar de assalto" (Ferreira, 1994,p.4), ou um abordar através de invasões e de falas desarticuladas do contexto de cada pessoa. Desejei muito fortemente encontrar as minhas melhores maneiras de atuação que pudessem beneficiar as pessoas e, ao mesmo tempo, me beneficiar com a presença dela.

Eu queria facilitar um achegar com aconchego, em lealdade a minhas posturas profissionais e pessoais : revigorar nas pessoas as emoções, a própria identidade, para que elas enfrentem com confiança os embates que a Vida impõe. É uma expectativa que me lembra desta tela "Buscando" , em que a flor busca a luz do sol, o sol que clareia os contornos das figuras e formas que se encontram na Natureza, contornos que ficam tão imprecisos quanto estamos na escuridão de uma sem estrelas e sem o brilho da lua, quando estamos confusos e sem pontos norteadores.

Mas o que seria um achegar com aconchego ?

Achegar é "aproximar, ligar, unir, compor aconchegando". Mas uma aproximação "confortável", como se agasalhasse" e "abrigasse com proteção", "pondo em contato e em comunicação" as partes que se "avizinham e se unem". (Ferreira, 1994, ps. 10, 11, 12, 166).

Será que a Arteterapia Humanista,

Seria uma proposta que tornaria viável

A vivência de um achegar com aconchego?

 

Descobrindo a Arteterapia

 

Eu tive a oportunidade de, em 1985, atender uma criança que entrava na sala de ludo, mas que se recusava a brincar e a manusear os brinquedos. Ela sempre escolhia canetinhas para desenhar, estabelecendo como forma de se comunicar a linguagem pictórica e não a esperada maneira de estar na sala de ludo, comunicar-se através dos brinquedos, das brincadeiras e da linguagem verbal. Eu percebi que me faltavam recursos técnicos para facilitar a expressividade daquela criança e compreender mais amplamente o que ela me mostrava.

Fez sentido para mim buscar conhecimento de técnicas artísticas, comecei a fazer cursos juntando-me a artistas, para que eu aprendesse a me expressar artísticamente.

Naquelas buscas eu encontrei maneiras para melhor expressar os meus anseios espirituais e minha curiosidade em conhecer profundamente as questões da alma humana. Acabei encontrando então uma maneira de registrar objetivamente o processo terapêutico do cliente. Registrar, medir e quantificar era algo familiar à minha época de cientista, só que agora eu incluía as minhas mudanças, os elementos estéticos e líricos, eu incluía a arte. Através das imagens plásticas criadas pela criança e por mim, eu identificava informações e as transcodificava para a linguagem verbal, pois as imagens plásticas eram autênticas e fidedignas expressões das percepções de seus autores, referentes a qualquer assunto. Descobri a utilidade das técnicas artísticas em um contexto terapêutico, elas ajudam as pessoas que querem se conhecer a expressarem não apenas aquilo que está presente em sua consciência, mas também aquilo que está emergindo de seu inconsciente e que está à borda de sua pré-consciencia. Ao realizar um trabalho artístico, seu autor revela um imagem de seu mundo interno, como resultado de seu trabalho de criação, constrói uma imagem plástica, trazendo para o mundo externo e objetivo a imagem que estava internalizada e na dimensão do imaterial, em seu mundo subjetivo. Ao contemplar suas próprias obra, o autor entra em contato com características essenciais que compõe a sua identidade. Ao usar recursos artístico, reconhece seus recursos internos, ou seu poder criativo, revigorando o sopro de vida contido em si mesmo.

 

Descobrindo a Abordagem Centrada na Pessoa e a Arteterapia.

Decidi fazer formação em Arteterapia, com Joya Eliezer, em São Paulo. E, enquanto me organizava para isto, eu me sentia cada vez mais atraída pela Abordagem Centrada na Pessoa e, para aproveitar minha ida a São Paulo, resolvi também expandir minha formação com Henriette Morato. Assim que iniciou o ano de 1987, iniciei também minhas peregrinações a São Paulo. Até que um dia Henriette me sugeriu que eu lesse um artigo de Maria Bowen, que falava sobre espiritualidade ( Quando fala o Coração ,organizado por Antonio Monteiro dos Santos, publicado pela Artes Médicas em 1987). E a vozinha dela ficou em meu coração, "tem tudo a ver com voce". Algo acontecia comigo que as pessoas mais sensíveis percebiam os meus anseios espirituais. E qual não foi a minha surpresa, quando Maria Bowen citava um poema de Kabir, que dizia :

"Se voce não descobrir o lugar

Onde sua alma está escondida,

Para voce,

o mundo nunca vai ser real."

A partir daquele instante comecei a compreender o sentido mais profundo de minhas peregrinações em busca de conhecimentos técnicos de Arteterapia e de Psicoterapia. Na verdade eu sentia a minha alma escondida e o meu mundo não era tão real assim com meus 14 anos de dedicação ao Behaviorismo e à Psicologia como Ciência do Comportamento.

E ao escutar as dores e anseios de minha alma busquei com firmeza a plasticidade dos recursos artísticos para a expressão de sentimentos, de pensamentos, de percepções.

Passei a concordar com Gide, escritor frances que viveu fisicamente no período de 1869 a 1951 :

"A Arte nasce quando viver não é suficiente

para exprimir a vida."

Busquei a Arte enquanto elemento facilitador da expressividade da alma e encontrei na Arte uma excelente condição de aprendizagem para reconstruir atitudes.

 

Para mim, encontrar a Abordagem Centrada na Pessoa, como referencial para exercer a Psicologia e me relacionar com meu mundo interno e o mundo externo, fez com que eu prestasse mais atenção às dores da alma humana e tivesse mais consideração com as dores e anseios de minha própria alma.

Após me encontrar com a Abordagem, comecei a dar outro sentido para a dor humana, talvez o sofrimento, tal como o estrume, pudesse se constituir como adubo para a terra, fortalecendo o solo durante a semeadura, ajudando na germinação das sementes e no crescimento das plantas... Plantas que florescem e frutificam... Para Arroyo (1975, p.111-112), a energia da Terra nos sintoniza com o mundo das formas ; fortalecendo nosso raciocínio prático, para que compreendamos o funcionamento do mundo material. A energia da terra também indica ao indivíduo como estar em contato com os sentidos físicos e com a realidade do aqui-e-agora do mundo material, pois precisamos do mundo materia, ele nos oferece condição para a nossa evolução espiritual.

Encontrando a Abordagem Centrada passei a aceitar que alma é a essência, ou sopro de vida de um ser. Um ser em qualquer forma de Vida, a humana, a animal, a vegetal, a mineral...

O meu envolvimento com a Abordagem Centrada na Pessoa ajudou a recuperar e a fortalecer o meu humanitarismo e o meu amor pela humanidade. Este mesmo sentimento de amor pela humanidade, me ajudou a escolher a Psicologia como profissão. Em minha adolescência eu queria me ocupar do sofrimento humano, por compaixão eu queria aliviar os sofrimentos das pessoas, e por curiosidade intelectual eu queria conhecer os motivos de tais sofrimentos...

Na Abordagem Centrada encontrei terreno fértil para semear meu anseio pelo espiritual. Para Rogers, "as pessoas do futuro são indagadoras. Querem encontrar um sentido e um objetivo da vida que transcendam o individual" ( 1980 , p. ). Eu me identifica com o que Rogers dizia, eu era muito questionadora, sempre buscando relações e verificando se um conhecimento poderia se integrar a um outro conhecimento. Tinha um lado meu que via a Vida como colchas de retalhos, e este meu lado se expandiu com minha dedicação à Ciência cartesiana, linear e determinista. Mas eu tinha um lado que queria ver o mundo como uma paisagem, em que cada elemento isolado tinha um sentido por si mesmo, mas quando estes elementos se interligavam em um todo, era como apreciar a serenidade de um lago com Ninféias [ Fig., Monet ]

A energia da água é receptiva, ela representa o reino das emoções profundas e das reações aos sentimentos.

Por sua própria natureza, "água é submissa, mas conquista tudo. A água conquista submetendo-se, nunca ataca, mas sempre ganha a última batalha. A água cede passagem para os obstáculos com uma humildade enganadora, pois nenhum poder pode impedi-la de seguir o seu caminho traçado rumo ao mar." (Blofeld, In Arroyo p.110-111).

A energia da água nos revela que a natureza de nossos sentimento que sempre estão parcialmente conscientes, por mais límpida que seja uma água, a sua transparência não é perfeita, produz imagens distorcidas. A fluidez da água também nos desvela a necessidade intrínseca das emoções, um recipiente para que ela possa ser recolhida e acolhida. Isto destina a humanidade a estar em contato e em relação com alguém ou algo, para que consigamos viver nossas emoções.

Redimensionando a Psicologia

Com o que fui descobrindo nessas caminhadas, percebi que eu precisava redimensionar o sentido e o significado da Psicologia para mim. Mas um sentido que não servisse apenas para mim, eu não queria apenas um significado individual, algo que apenas substituísse aquele jeito cartesiano de fazer Psicologia e apaziguasse o meu conflito de lealdade e minha culpa por ter arriado a bandeira do Behaviorismo, afinal eu era considerada uma das "herdeiras" do legado behaviorista no Brasil.

Eu buscava um significado que transcendesse a minha individualidade, que desse direções ao meu proceder e que também fizesse sentido para pessoas que estavam em busca da própria alma, fossem essas pessoas os clientes, os alunos, os familiares, a humanidade...

Eu me perguntava, por que a Psicologia não se ocupava daquilo que seu próprio nome diz :

psyche - alma , e logos - estudo ?

O que seria estudar sistematicamente a alma,

não no sentido teológico,

mas naquele sentido que os dicionários dão

"essência ; sopro de vida"?

Quando presto atenção nas palavras "sopro de vida", percebo meu lado lírico tocado. Meu lado sonhador, sentimental e romântico deseja falar, em forma de poesia, sobre as emoções e os sentimentos mais íntimos das pessoas. Não é uma maneira científica de fazer Psicologia, mas sem dúvida alguma é uma maneira artística.

. Estudar, investigar, compreender, conhecer e explicar os fenômenos psíquicos, enquanto manifestação da alma humana, ou daquilo que é essencial aos atributos humanos.

Mas o que seria um atributo essencialmente humano ?

O que faz parte da alma humana ?

Na mitologia grega (Guimarães, 1996, p.267-268) a alma humana era representada por uma borboleta. Quando uma pessoa morria, sua alma escapava do corpo na forma de uma borboleta. Já nesta época a humanidade tinha, na imagem de borboleta, o significado simbólico de transformação. As borboletas representavam a passagem da vida corpórea para a vida espiritual. A palavra grega psyché, além de alma, também significava borboleta (Arroyo, 1975, p.27)

Será que os psicólogos atentam para este detalhe ?

Psyché... Alma... Borboleta... Transformação...

Psyché era geralmente representada por uma figura feminina, mais menina do que mulher, com asas de borboleta. Esta representação simbolizava o princípio de alma, a qualidade de vida que se transforma. A figura feminina sugerindo o compromisso com a receptividade, com a gestação e com a nutrição. Uma figura mais menina do que mulher, desvelando a promessa de amadurecimento, não só de Psyché, não só da alma de uma individualidade, mas da própria Psicologia.

Assim vejo a Psicologia, uma ciência cuja PRAXIS necessariamente deveria revelar a vida que se transforma e desvelar os processos de transformação. Tendo os praticantes de Psicologia o dever de investigar como a Essência, ou Alma Humana, manifesta ou exterioriza vida, considerando necessariamente vida como um processo de transformações.

Integrando contextos com : Arteterapia , Abordagem Centrada na Pessoa e

uma terapeuta mais espiritualizada

Percebo e reconheço, tanto na minha atuação profissional, quanto na vida pessoal, as cores do behaviorismo do humanismo, da arte e do espiritualismo. Atualmente viver a Psicologia é como estar nesta paisagem [ Fig. : Monet , Impressão. Nascer do Sol. , 1873 ] Contemplando esta belíssima tela de Monet, que representa um marco importante na História da Arte, pois ela é a obra símbolo do Impressionismo. Mas ela não é significativa apenas para a História da Arte. Ela cumpre uma das finalidades da Arte, que é revelar a tendência do movimento cultural, filosófico e o pensamento da época emergente, ajudando o Ser Humano a sair de onde estava - do pensamento romântico, do pensamento naturalista, do pensamento cartesiano, das atitudes positivistas e mecanicistas - para ir de encontro com a subjetividade. Segundo Hauser (1969, ps.17-18), o movimento artístico da geração de 1830 (tanto da literatura quanto das artes plásticas), possibilitou emergir a dúvida sobre a Razão e sobre o sentido da realidade exterior. O sentido da obra de arte oscilava entre uma ilusão ( algo imanente, separado da realidade) e uma função prática (determinada pela vida social). A essência da obra de arte passou a incluir a experiência estética direta e autônoma, caracterizando-se por ser uma ilusão perfeita e a necessidade da existência da "quarta parede", ou do público, do expectador, que ao participar autenticamente da contemplação da obra, além de desfrutá-la tem autonomia suficiente para interpretar o sentido da obra, sem que o sentido dado pelo contemplador seja necessariamente idêntico à intencionalidade do artista/autor da obra (Hauser, 1969. Ps.34-35).

Contemplemos esta obra prima de Monet, Impressão. Nascer do Sol. Ofereçamos a nós a oportunidade de usufruir dela. Que mensagens ela nos traz? Que informações podemos extrair deste cenário? O que pode representar um amanhecer? Um caminhar mais seguro, tendo a claridade da luz do sol para mostrar detalhes do terreno... Conhecer detalhes pode ajudar a facilitar e a garantir um movimento sem quedas e com menos erros de direção... Um barquinho em águas tranquilas pode confirmar esta interpretação, da caminhada segura... Lembremos que o barquinho é realisticamente, ou tem a função prática, de um meio de transporte, ou seja, é uma das modalidades de nos transportarmos, deslocarmo-nos de um ponto a outro. Neste barquinho, podemos ser ora timoneiros, e conduzir, ora passageiros, ou sermos conduzidos.

Será que esta simbolização poderia

representar e descrever sinteticamente

a natureza e o funcionamento

da relação/relacionamento humano?

A relação terapêutica teria

um funcionamento muito diferente disto ?

Atualmente fico muito confortável em seguir a minha curiosidade, sei que ela me guiará em direção a experiências que sempre me trazem alguma aprendizagem significativa e enriquecem a minha maneira de estar no mundo e a minha maneira de ser. Sem me importar com fidelidade de partidos, se tenho carteirinha do clube da Gestalt, ou do clube da Abordagem , ou do Behaviorismo, da Terapia Sistêmica, do Ateliê do fulano de tal, e assim por diante... Acho que estou aprendendo a ser fiel a mim mesma!

E assim eu tenho caminhado e construído minha trajetória e meus caminhos, ora com a Ciência, ora com a Arte, mas sempre comigo ! É como estar atravessando estas linda Pontes Japonesas, criadas por Monet .

Às vezes tenho a impressão de estar recortando retalhos e sinto um pouco de receio de que um estado de desconexão se estabeleça e dure para sempre. Mas são momentos fugazes, basta permitir que uma atividade artística me envolva e toque meus sentimentos, que me vejo qual uma artesã, costurando retalhos para construir uma colcha, ou um tapete, ou, quem sabe, algo para ser simplesmente apreciado, contemplado...

Ainda hoje fico intrigada com este meu jeito de me organizar integrando significados.... Às vezes eu pergunto para mim mesma - mais numa tentativa de explicar o meu processo e tentar dar ordem aos fatos, do que me justificar - como eu me oriento, quais os critérios usados por mim para dirigir, ou dar direções, para minhas escolhas ? Aonde arranjo tanta disposição, para procurar tão metodicamente relações, estabelecer e criar ordens harmonizantes (ou passíveis de harmonia), seja no meu processo de recortar retalhos, ou de ordenar informações para produzir um trabalho a ser apresentado em algum evento, ou de apreender os significados dos retalhos da minha própria vida. Como eu me oriento ?

No decurso de minha vida

oscilei...

De um lado para o outro

eu me debati...

Entre dores e alegrias

eu descobri,

como estar lado a lado

com o que vivi...

(Corrêa, 1997, 7º ENACP)

Sem dúvida alguma através de meu lado artístico e de meu lado lógico, ou se preferirem, de meu lado direito - D , e de meu lado esquerdo - E , do cérebro!

Esta constatação soou muito forte dentro de mim, fui prestando atenção em meu interior e hoje tenho uma relativa clareza o que acontece comigo, é como se o vento Zéfiro me trouxesse Eros e Psyché interligados pelo sucesso da Saga Heróica de Psyché, na sua caminhada de superação e de auto conquista.

Eu sinto uma leve inquietação, como se eu estivesse sendo provocada por aquilo que me tocou, como se a inquietação me desafiasse a desvendá-la. Ao mesmo tempo, eu me sinto instigada por alguma imagem pictórica. Começo a dialogar comigo mesma, ou melhor, com meus dois lados, o meu lado direito e o meu lado esquerdo. Sinto uma necessidade de compreender o que vivo naquele instante, abrangendo o que intelectualmente percebo através de meus pensamentos da minha modalidade esquerda , eu me encontro mergulhada e usufruindo de um "estado de processamento de informações descrito como linear, verbal, analítico e lógico" , mas simultaneamente "espacial, relacional, holístico". (Edwards, 1979, p.218).

 

Contextualizando a Arteterapia

Durante minha formação em Arteterapia fui criando destreza em construir diálogos internos e externos, de modo a alternar estes meus dois lados do cérebro, o direito e o esquerdo.

E assim aprendi a construir diálogos, tal como se constrói uma sólida ponte, aproveitando "fig. Qualquer elemento que estabelece ligação, contato, comunicação ou transição entre pessoas e coisas" (Ferreira, 1994, p.517).

A palavra alternando me instiga tanto, que me fez parar em um ponto desta ponte, ou deste diálogo, para lançar meu olhar em direção ao horizonte, ampliando nas minhas lembranças a perspectiva da Arteterapia ser vista como uma Terapia Alternativa. Rapidamente em minha consciência se tornaram presentes as idéias que eu tenho sobre a prática da Arteterapia enquanto uma Psicoterapia Alternativa.

Que idéias temos sobre o conceito de alternância ?

O termo alternativo, enquanto um adjetivo, nos dá a idéia de sucessão "que vem ora um ora outro ; que se diz ou se faz com alternação ; diz-se das coisas que se pode escolher a que mais se convenha" (Ferreira, 1994, p. 33). Mas se conceituarmos o termo alternativo como substantivo, esta condição nos traz a idéia de sucessão de duas coisas mutuamente exclusivas, nomeando e determinando uma situação em que deixa implícita a idéia de incompatibilidade. Para Ferreira (1994, p.33) o substantivo "alternativa" significa "sucessão de duas coisas mutuamente exclusivas".

Considero a Arteterapia como uma modalidade de Psicoterapia Alternativa, quando engloba a idéia de alternância como um adjetivo, no sentido que um adjetivo nos traz – o de uma qualidade implícita. Ou seja, quando considera a característica de alternância de um modo inclusivo. Novamente a idéia fica implícita, nem sempre de um modo claro e explícito, pois alternância enquanto adjetivo é uma condição que considera a possibilidade de escolha entre alternativas que não se excluem.

Em um processo de comunicação sobre o mundo interno, fica incluída tanto a expressividade artística, quanto a expressividade verbal, podendo-se escolher entre estas duas alternativas, ora uma ora a outra, conforme as conveniências das pessoas que irão vivenciar, que vivenciam e/ou vivenciaram a possibililidade de se expressarem numa relação instituída e configurada por essas pessoas. Ressalto a condição de possibilidade, pois na prática uma comunicação pode se caracterizar com a qualidade do possível, pode acontecer com eficiência, mas, priorísticamente, não conseguimos determinar, nem controlar a forma e os rumos de uma comunicação.

O funcionamento intelectual natural ao ser humano, se faz incluindo tanto a modalidade artística quanto a modalidade lógica. Percebemos e processamos as informações daquilo que vivemos, ora através da modalidade direita, estabelecendo cruzamentos de informações, assimilando novas informações e integrando-as às informações já registradas e acumuladas, e de um modo rápido, simultâneo, visual e espacial, próprio de nosso lado artístico. Em outros momentos, processamos as informações através da modalidade esquerda , conferindo ponto a ponto, em uma sequencia lógica e linear, sem curvas, voltas e rodeios, é o nosso lado científico cartesiano. E assim vamos nos regulando, escolhendo a modalidade que mais nos convenha de momento a momento. Esta liberdade experiencial, que nos é conferida por mecanismos de auto-regulação, torna a comunicação artística mais imprevisível ainda e menos determinada ou controlada aprioristicamente, mas muito possível de ser vivida e descrita.

Mas como definir o viver artístico ?

O que é a Experiência artística ?

O que elas nos comunica ?

Como concretizar uma comunicação artística?

Confirmo, cada vez mais, o poder da contemplação artística, ou a "aplicação demorada e absorta da vista e do espírito" (Ferreira, 1994, p.173), dirigida a um objeto que tem arte. Um cenário esteticamente harmonioso, nos remete a vivenciar a nossa interioridade com facilidade, a ver e a escutar com os olhos e os ouvidos da alma, o que a nossa alma tem a dizer para a nossa consciência. Voltemos, por um instante a contemplar a linda Ponte do Mestre Monet [Fig. Ponte em tons verdes] , apliquemos a nossa atenção, imaginemos que estamos neste cenário, sentindo uma leve brisa, que toca a nossa pele, que move vagarosamente as lindas e coloridas ninféias... Quanto verde à nossa volta ! Permitamos que este verde nos absorva... Quanta esperança para a Arteterapia e para os Arteterapeutas.... Temos uma bela ponte, que nos conduz ora para a margem da concretude, da suposta objetividade e da lógica, ora para a margem da arte e da subjetividade quase insustentável. Ou a subjetividade é sustentável pela objetividade e a busca científica rigorosa de regularidades e explicações ?

Indo e vindo por esta ponte, fui percebendo uma mudança em meus sentimentos, ao invés de saudades da Joya surgia a alegria do reencontro. Acho que a nossa amizade também é assim, nossos profundos contatos são alternados por períodos de ausência, e nós duas procuramos escolher o que mais nos convém, ora nos encontramos, ora nos afastamos...

 

Em 1993, assistindo a uma palestra de Faiga Ostrower, fiquei fortemente impressionada com seu posicionamento a respeito de criatividade. Ela afirmava que "o ser humano constitui um ser criador, por natureza". Eu me identifiquei com a fala dela de que "o fazer artístico é um prolongamento de atos que fazem parte do processo de viver" .

Deixei que as palavras - o fazer artístico - ficassem bailando em meus pensamentos e em meus sentimentos. Procurei resgatar minhas sensações quando estou diante de uma tela ou uma folha em branco . O que eu fazia para preencher o vazio ? Às vezes uma imagem surge em minha consciência e tento reproduzi-la. Quando a imagem não surge, ou demora para surgir, olho para as cores de minhas tintas ou do giz pastel, escolho uma cor e deixo que minha mão e a cor "pensem" e planejem os movimentos coloridos, as cores e os traçados vão sendo escolhidos passo a passo, ficando neste processo revelada, enquanto autora dos movimentos, a minha capacidade em manusear materiais, e através deste manuseio, colocar em prática as minhas idéias .

Este agir inclui um componente artístico, não somente por lançar mão do manuseio de materiais artístico, mas por transformar este manuseio em um fazer comprometido com a estética e com o belo. O belo "é agradável aos sentidos", possui "formas e proporções harmoniosas" (Ferreira, 1994, p.90). A contemplação e a vivência do belo elevam as nossas sensações e sentimentos ao sublime, ao magnífico, ao êxtase quase perfeito...

A arte pode ser definida como (Ferreira, 1994, p.64):

"capacidade que o homem tem de por em prática uma idéia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria"

"atividade que supões a criação de sensações ou de estado de espírito de carater estético carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação"

Mas este fazer artístico seria diferente em outras contextualizações ?

Contextualizar, traz a idéia de compor, de efetuar ligação entre partes de um todo (Ferreira, 1994, p.173), podendo, não necessariamente, ter um compromisso com atividades artísticas, mas sempre revelando a alma do autor que contextualiza, desvelando a sua percepção de Mundo, de si mesmo e de si mesmo no mundo. Existe sempre um compromisso com a estética, com a harmonia e com o belo, porque pressupõe uma articulação de partes em um todo, através de um trabalho laborioso, artesanal e único.

 

Definindo Arteterapia

Carvalho et colaboradores (1995, p.25) : define Arteterapia como a área de terapias expressivas, abrangendo todas as modalidades de uso de recursos artísticos, expressão plástica, dança teatro, expressão poética, expressão corporal, dentro de um processo terapêutico.

A arteterapia não possui uma teoria e metodologia própria, sendo necessário ao Arteterapeuta lançar mão de uma teoria, assim como de suas próprias criatividade, intuição e habilidade de expressão artística, para delinear seus procedimentos no processo terapeutico. O meu referencial teórico é a Abordagem Centrada na Pessoa, que se fundamenta no Humanismo.

 

O meu encontro com o Humanismo

O encontro com o humanismo me trouxe a oportunidade feliz de viver em sincronia com o movimento humanista, tanto a nível profissional quanto pessoal.

Morato (1974) ao comentar o movimento cultural humanista afirma que "tanto o humanismo clássico como o moderno são reações contra a desumanização dos seres humanos" (p.24).

Complementando a afirmação de Morato, creio que a nível pessoal isto também acontece. Analisando o meu desenvolvimento humano, houve uma época em que eu me percebia num processo de desumanização, como resultado de uma série de escolhas que eu fizera para a minha vida pessoal e profissional. Ao me encontrar profissionalmente com o Humanismo, eu me percebi ávida para viver as propostas humanistas básicas, que era fomentar o processo de humanização e de dignidade do homem, a ser conquistado através do trabalho livre e do próprio esforço em expressar talentos, com a sensibilidade necessária e a flexibilidade suficiente para revelar a ideologia de um momento e de um lugar (Corrêa Navarro, 1991, p.4).

O Humanismo privilegia a experiência e a subjetividade como fenômenos primários, enfatizando qualidades intrinsecamente humanas, como livre arbítrio, criatividade e auto-realização, resgatando a valorização da dignidade do Homem e do desenvolvimento de potencial inerente a cada individualidade.

O movimento humanista mostra uma continuidade, estabelecendo elos de ligação histórica entre passado e presente (Coelho, 1982, p.438). Se olharmos para a história da humanidade podemos verificar que o movimento humanista é bastante integrador, estabelecendo elos não apenas entre o momento em que ele se manifesta e o contexto no qual ele se manifesta, mas também entre passado e presente, parecendo demonstrar e confirmar a tendência formativa, tal como concebida por Rogers (1980), de que parece existir no Universo uma tendência de que "toda forma que vemos ou conhecemos surgiu de outra mais simples, menos complexa (p.44-45)".

O Surgimento do Humanismo na Humanidade

Segundo Coelho (1982, p.431), o vocábulo humanista surgiu na Língua Portuguesa no século XIV, que significava o estudioso e o cultor das artes e da literatura que expressavam o ideal de nobreza humana. Os primeiros humanistas foram agitadores de idéias e lideravam um movimento cultural denominado atualmente por Humanismo Renascentista. O vocábulo humanismo surgiu na Língua Portuguesa apenas no século XIX, mas para facilidade de comunicação nos referimos aos movimentos culturais humanistas, anteriores ao século XIX, como Humanismos. Atualizando o significados destes vocábulos por Ferreira (1994, p.346), humanista é "pessoa versada nos estudos de humanidades ; partidário do humanismo filosófico", enquanto que humanismo significa "doutrina e movimento de humanistas da Renascença, que ressuscitaram o culto das línguas e literaturas greco-latinas ; formação do espírito humano pela cultura literária ou científica".

Particularmente eu aprecio a definição que se refere à formação do espírito humano, é como se espelhasse a história de minha própria formação pessoal integrada à profissão que eu escolhi, a Psicologia. Profissão esta que me coloca permanentemente em relações de ajuda, onde posso, pela humanidade que existe em mim, colocar minha "compaixão" pelo "gênero humano" e minha curiosidade pela "natureza humana". Orientar-me pelo amor à humanidade promove em mim uma gratificante sensação de solidariedade, me predispondo a fazer contato com a humanidade, naturalmente atribuída a todas as pessoas que habitam neste planeta.

O Humanismo Renascentista teve como base histórico-social a rejeição da visão de Homem da sociedade feudal e da cultura eclesiástica. Este movimento de renovação intelectual e artística, iniciado na Itália no século XIV e tendo seu apogeu no século XVI, combatia toda e qualquer classificação do Homem em castas ou escalas hierárquicas, resgatando os valores pessoais do Homem. Desde então todos os movimentos humanistas foram marcados pela crença na capacidade da criação humana, buscando um alargamento dos limites humanos, mas de modo a conciliar a Ética Hedonista, da busca do prazer e da felicidade, com a Ética Cristã, do desenvolvimento das virtudes no Homem. Com esta síntese, o Humanismo Renascentista resgatou a credibilidade no potencial de bondade do Homem, conceituando a bondade como um atributo inerente à natureza humana e não apenas à natureza dos santos.

O interesse central do Humanismo era, e continua sendo, a realização da individualidade e do potencial humano.

Do ponto de vista Estético, o Humanismo Renascentista trouxe nas Artes Plásticas a valorização da figura humana do corpo perfeito e forte conciliando com expressões angelicais e perfeitas, refletindo um equilíbrio harmonioso, embora contraditório, entre a força bruta dos músculos (corpo) e a força espiritual do homem (as virtudes e a bondade. Contemplem esta Madonna, do pintor renascentista Botticcini, todas as expressões são angelicais, com corpos robustos e perfeitos... "A expressão angelical atribuída ao anjo, a criança e ao adulto, revela a crença na angelitude e na bondade do ser humano. Se as pessoas podia ter expressão de anjo, poderiam vir a ser anjos" (Corrêa Navarro,1992a). Esta era a mensagem contida na linguagem pictórica de obras como esta.

Ainda no século XIV, com a ascensão da burguesia, os artistas e intelectuais da época se libertaram do domínio do clero. O conhecimento se tornou acessível a qualquer pessoa que possuísse talentos para isso, mas desde que esta pessoa conseguisse cair nas graças de um burguês que se dispusesse a subvencionar seus estudos. O mecenato foi instituído e os artistas e intelectuais passaram a depender de burgueses generosos e protetores. Apesar desta atualização do servilismo, agora um servo ou plebeu, poderia ter acesso aos estudos, conquistar um mecenas e obter prestígio através do talento pessoal. Pelo esforço e a dedicação de talentos individuais, o conhecimento deixou de pertencer exclusivamente ao clero, para obedecer às mesmas leis de mercado que regiam qualquer atividade econômica. Apesar do mecenato havia um pouco mais de liberdade para que os artistas e intelectuais expressassem sua criatividade, idéias e ideais em seus trabalhos e obras. Com isso foi fomentada a iniciativa pessoal, sendo o processo de dignificação do homem conquistado pelo seu trabalho e pelo seu esforço em expressar os próprios talentos.

Todos os Humanismos , principalmente o Renascentista, foram inspirados na Antiguidade Clássica (gregos e romanos), mas cada geração atribuiu elementos ideológicos que refletiam o momento social e histórico da época. O Humanismo tem primado pela sensibilidade em captar o modo de pensar e sentir do Homem, caracterizando-se pela flexibilidade necessária para ser capaz de revelar a ideologia de um tempo e de um lugar específico. Desde o Renascimento as correntes humanistas "desejava(m) mostrar uma continuidade cultural, procurando estabelecer elos de ligação histórica entre passado e presente" (Coelho, 1982, p.438).

A natureza do movimento humanista é integradora, como todo ato de expressão de amor, o humanismo predispõe a atitudes de promoção do bem estar do outro, de dedicação com devoção e consideração pelo outro, pelo que ele foi (passado), pelo que ele está sendo (presente) e por aquilo que virá a ser (futuro). É um respeito profundo para com os atributos humanos e para com a humanidade.

A Orientação Humanista dentro da Psicologia

Orientação é um impulso ou tendência, que nos indica um rumo, uma demanda de reconhecer e examinar cuidadosamente os aspectos de uma questão, ou de um lugar, para que possamos nos guiar e determinar posicionamentos e direcionamentos (Ferreira, 1994, p.469).

A orientação humanista dentro da psicologia, como todos os movimentos humanistas, desde o Humanismo Renascentista, surgiu justamente em reação ao efeito desumanizante nas pessoas, provocado pela moderna sociedade tecnológica e no difícil momento do pós segunda guerra mundial. A Psicologia Humanista surgiu nos Estados Unidos, no final da década de 40, se contrapondo também às forças da psicanálise e do behaviorismo, através dos trabalhos de Carl Rogers e de Fritz Perls, se fortalecendo nas duas décadas seguintes, a de 50 e a de 60.

O movimento humanista dentro da Psicologia é considerado a "terceira Força da Psicologia", se contrapondo à Epistemologia determinista e mecanicista da Psicanálise e do Behaviorismo (Morato, 1974, p.55). A Psicologia Humanista é considerada mais uma atitude dirigida para melhor compreensão do Homem, do que uma teoria específica para explicar o homem. Não é prioritário para a Psicologia Humanista encontrar as causas determinantes da natureza e do sofrimento humanos, mas compreender, ou seja, "alcançar com a inteligência as intenções ou o sentido de ; conter em si , abranger ; estar incluído ou contido" (Ferreira, 1994, p.165).

Sendo tão primordial a atitude de compreender, é uma consequência natural que se privilegie a experiência imediata, enquanto fenômeno para se conhecer Homem. Evidentemente para se descobrir com a inteligência a intenção e o sentido da experiência, o sujeito que se propõe a conhecer precisa estar incluido no próprio fenômeno estudado. O conhecedor, através da tomada de consciência da própria experiência imediata, através da identificação dos sentimentos e das percepções que se destacam em sua subjetividade, encontrará o sentido daquilo que está experienciando ao observar aquilo que está estudando. A Fenomenologia [texto Mauro]tem sido o método de investigação mais adequado para se investigar o fenômemo humano, pois ao considerar o ato de conhecimento como um ato empírico, privilegia o conhecimento subjetivo, colocando-o como mais fiel e significativo do que o conhecimento objetivo. O método fenomenológico de investigação é empírico e descritivo e, renunciando à necessidade de controle de variáveis para descrever e predizer os fatos, como nos métodos científicos experimentais.

A Fenomenologia viabilizou a observância dos princípios da Psicologia Humanista de privilegiar a experiência imediata, usar procedimentos de pesquisa compatíveis à natureza do problema estudado e do organismo humano estudado, selecionar problemas significativos, mais para a pessoa em estudo do que para o estudioso do problema.

A Fenomenologia assegurou como pré-condição para se chegar ao conhecimento objetivo o conhecimento subjetivo.

 

Arteterapia Humanista ou

Buscando a Experiência Imediata e o Encontro com o Espiritual

 

Encontrar a Arteterapia através da Orientação Humanista, como referencial para exercer a Psicologia e me relacionar com meu mundo interno e o mundo externo, fez com que eu prestasse mais atenção às dores da alma humana e tivesse mais consideração com as dores e anseios de minha própria alma. Comecei a dar outro sentido para a dor humana, talvez o sofrimento, tal como o estrume, pudesse constituir adubo para a terra durante a semeadura, fortalecendo o solo para a germinação das sementes...

Passei a aceitar que alma é a essência, ou sopro de vida, de um ser. Um ser em qualquer condição, a humana, a animal, a vegetal, a mineral... E ao escutar as dores e anseios de minha alma busquei com firmeza os recursos artísticos para expressão de sentimentos, pensamentos e percepções.

Para mim ser terapeuta humanista, através dos recursos da Abordagem Centrada na Pessoa e da Arteterapia, é viver o amor espiritual é como estar na tela de Monet (1879), O campo das Papoulas. (Fig. 28 )

Como tenho compreendido o Desenvolvimento Espiritual

 

O espiritual se refere a tudo aquilo que é "incorpóreo ; a parte imaterial do ser humano" (Ferreira, 1994, p.270), aquilo que objetivamente não é passível de se tornar matéria. São as impressões e os acontecimentos subjetivos, algo de natureza não concreta.

"Para se relacionar mais com a busca espiritual do homem .... a Abordagem Centrada na Pessoa deve se dirigir mais para o intrapessoal." (Bowen, 1987, p.87).

A vivência do Espiritual é uma "vivência do Self interno .... nós nos sentimos interligados com a energia do Universo." .... "é um sentimento de plenitude, no qual nada parece estar faltando e no qual nós nos sentimos totalmente conscientes e em êxtase. (Bowen, 1987, p.111)

Nós vivenciamos nós mesmos não como estando sozinhos, mas como parte de um todo cuja definição depende também de nossa existência." (Bowen, 1987, p.104)

(Hammed) : "Cada um de nós está destinado a participar de uma maneira específica e peculiar na obra da criação." "Pelo fato de a porta ser estreita, deveremos atravessá-la - um de cada vez - completamente sozinho, acompanhados apenas pelo mundo de nossos pensamentos e conquistas íntimas. .... pois para transpor esta porta é preciso aprender a arte de ser."

Para Bowen o Self interno é a fonte de sabedoria, conhecimento e amor que vive dentro de nós. Para mim é a alma, a essência da pessoa, é aquilo que dá vida à pessoa, que permite inclusive a experiência de interconexão, que nos dá a segurança de que nossa existência faz sentido, tem sentido e dá sentido à nossa existência.

 

(Lievegoed, 1976, p.21) "O espírito humano é vivenciado como nosso próprio eu ou eu superior, que tanto consciente quanto inconscientemente dirige a nossa biografia. O espírito visa o objetivo da vida , sendo sempre dirigido para um fim. Na alma este objetivo pode ser vivenciado como um chamado, pensado como um plano de vida ou desejado como um caminho de vida."

[ a saga heróica do despertamento e da busca da auto-conquista ]

[ Fig. 30 ]

(Lievegoed, 1976, p.22-23) "O desenvolvimento espiritual ocorre na polaridade entre criatividade e sabedoria.

.... uso o termo "sabedoria" para abranger não apenas a sabedoria de sistemas filosóficos elevados, mas também, mais essencialmente, a sabedoria de vida que pode ser encontrada em qualquer nível, classe e grau de aprendizado. .... As polaridades às quais me referi possuem todas um meio; não é apenas um equilíbrio estacionário de duas forças distantes, mas é, em si mesmo, uma força ativa no homem. É na verdade a essência da existência humana. .... Cada uma das três polaridades tem, assim, uma tríplice natureza : .... criatividade X plenitude X sabedoria ....

[ o espiritual é aquilo que dá sentido à vida ]

(Lievegoed, 1976 , p.17) : "A palavra mudança nos conta apenas que nada é estático e que tudo se move na correnteza do tempo.

Crescimento é uma mudança sistemática, na qual um aumento quantitativo em número, tamanho ou peso de um dado elemento tem lugar dentro do mesmo sistema.

Desenvolvimento é o crescimento no qual mudanças estruturais ocorrem em pontos críticos, através do sistema."

[ desenvolvimento segue uma orientação ]

Capra , A Teia da Vida => ciclos de desenvolvimento

Busquei maneiras para melhor expressar os meus anseios espirituais e minha curiosidade em conhecer profundamente as questões da alma humana. Fiz formação em Arteterapia, encontrando então uma maneira de registrar objetivamente, esteticamente e liricamente, através de imagens plásticas, expressões das percepções de seus autores, referentes a qualquer assunto.

Como funciona a Arteterapia

Descobri a utilidade das técnicas artísticas em um contexto terapêutico, elas ajudam as pessoas que querem se conhecer a expressarem não apenas aquilo que está presente em sua consciência, mas também aquilo que está emergindo de seu inconsciente e que está à borda de sua pré-consciencia. Ao realizar um trabalho artístico, seu autor revela um imagem de seu mundo interno, como resultado de seu trabalho de criação, constrói uma imagem plástica, trazendo para o mundo externo a imagem que estava internalizada e na dimensão do imaterial. Ao contemplar sua próprias obra, o autor entra em contato com características essenciais que compõe a sua identidade. Ao usar recursos artístico, reconhece seus recursos internos, ou seu poder criativo, revigorando o sopro de vida contido em si mesmo.

E como proceder para investigar a manifestação da vida que se transforma ? Qual o papel da Dialética ? Seria através da Dialética , ou a partir dela ? Desenvolver uma dialética ou um diálogo dialético? A palavra dialética significa "processos gerados por oposições, que provisoriamente se resolvem em unidades"(Ferreira, 1994, p.220). Se olharmos com atenção para o termo provisoriamente, precisamos considerar a transitoriedade das verdades produzidas por qualquer processo que visa gerar conhecimento. E ainda incluir nestas considerações, como um dos possíveis resultados dos diálogos dialéticos, o surgimento de sínteses, ou de "fusão de uma tese e de uma antítese numa proposição nova que retém o que elas tem de legítimo, combinando a introdução de um ponto de vista superior", como resultado natural de uma "operação mental do simples para o complexo" (idem, p.602)

E é com este espírito que penso desenvolvermos a nossa apresentação : o que cada um de nós pode apresentar de legítimo, pode gerar resultados diferentes , seja por oposição ou não. Mas com a necessidade de promovermos uma fusão de teses e antíteses e, assim promovermos a realização da Psicologia em vida que se transforma e, porque não, a transformação da própria Psicologia em Vida ?

Como articular atividades e expressão artística em um contexto terapêutico ?

O ATO CRIATIVO : UMA PONTE PARA O AUTOCONHECIMENTO

O ato criativo é sustentado pela capacidade que o indivíduo tem para simbolizar o significado daquilo que viveu. A capacidade de simbolizar é um atributo inerente à natureza humana.

Ao compor uma imagem pictórica e manusear materiais para dar concretude à imagem criada, seu autor produz uma obra.

 

".... aquilo que chamamos obra de arte

não é fruto de uma atividade misteriosa,

mas são objetos feitos por seres humanos e para seres humanos....."

" .... cada uma de suas características

é o resultado de uma decisão pessoal do artista .... "

(Gombrich, 1972)

 

MECANISMO DE PROJEÇÃO PICTÓRICO ou mecanismo pictórico de projeção ?

Considerando que :

a criatividade é um atributo da natureza humana

O ato criativo é sustentado pela capacidade de simbolizar, atributo inerente à natureza humana

a expressão artística é um atributo da natureza humana,

a capacidade de expressão artística é particular a cada pessoa

na manifestação da criatividade com materiais e recursos artísticos, a pessoa constrói uma obra,

a projeção é a base da criatividade artística

na obra criada, construída com uma série de decisões pessoais de seus autor, é revelado, por projeção, e por identificação com a representação do símbolo, os conteúdos de suas percepções, pensamentos e sentimentos, tendo ou não consciência destes conteúdos.

De modo que a obra produzida é um espelho do mundo interno de seu autor, revelando não apenas suas características pessoais (possibilidades e limites), suas potencialidades, mas inclusive a maneira que esta pessoa se organiza em seus relacionamentos intrapessoal, interpessoal e com o Mundo

a obra artística é um verdadeiro registro da alma de seu autor, que se manifesta em uma linguagem muito peculiar, com símbolos particulares ao contexto do momento histórico de seu autor e particular ao contexto terapêutico,

O trabalho do terapeuta é laborioso

tanto ao momento da criação, quanto ao contexto, cabendo ao arteterapeuta a tarefa de transcodificar a linguagem contida na obra em linguagem verbal, para que seu próprio autor identifique a vida que se transforma . Lazzarini

papel do T: pedir desdobramentos para a compreensão da obra realizada, orientado pelo diálogo intuitivo e silencioso com a obra ou imagens pictórica que o autor/cliente processa. O autor também vivencia um diálogo silencioso e intuitivo para tomar as decisões, momento a momento, passo a passo, do que fazer. O T, ao contemplar a o bra criada pelo seu cliente/autor, mantém este diálogo silencioso com a obra contemplada, escuta a si mesmo, fica atento à instigação que a contemplação provoca dentro de si, observa o os seus movimentos internos, interpreta o que vivencia na contemplação, ou seja, interpreta a si mesmo, e expressa para o cliente a própria compreensão do que vivenciou, ou seja, vivenciou o fenômeno da contemplação , refletindo sobre o vivido percebe a multiplicidade de sentidos que se desvelam simultaneamente, captou alguns dos significados revelados na vivência, se identificou com uma das múltiplas possibilidades do vivido-sentido e comunica a sua versão do vivido, ou a sua verdade, absolutamente subjetiva, mas tão concreta quanto a obra contemplada, com um significado tão fugaz e transitória quanto um instante de luz, ou uma pincelada vigorosa, curta e rápida de um mestre impressionista. Pois "cada momento de consciência é uma totalidade vivida" (Afonso, 1999, comunicação pessoal).

O mesmo processo de diálogo pré-reflexivo acontece no cliente, enquanto contemplador da própria obra. Sua obra tem a concretude que suas próprias idéias imprimiram no material artístico. Elas são um registro de sua alma, { arco de rosas em Giverny}

Ao facilitar o diálogo o T facilita uma alternância ó Arteterapia enquanto Psicoterapia Alternativa (adjetivo) | alternância entre sujetividades (diálogo entre T e C) | alternância entre modalidade esquerda e modalidade direita

O autor enquanto contemplador ajuda o T a dar sentido na obra produzida, é uma busca compartilhada de sentidos, que vão se constituindo entre o processo de constituição do vivido pelo próprio autor, enquanto autor da obra, pelo próprio autor do vivido, enquanto contemplador da obra. Processo este expandido pela conscientização do vivido (interpretação da experiência, e a simbolização decorrente desta interpretação)

 

Na Arteterapia o fazer artístico não visa apenas a realização do potencial humano com um compromisso estético ( ) , mas a realização do potencial humano com um compromisso com a busca de autoconhecimento com suficiência para que a própria pessoa encontre soluções mais felizes para sua vida e seu viver.

 

 

 

 

 

 

 

 

MECANISMO DE PROJEÇÃO PICTÓRICO

Considerando que :

a criatividade é um atributo da natureza humana

O ato criativo é sustentado pela capacidade de simbolizar, atributo inerente à natureza humana

a expressão artística é um atributo da natureza humana,

a capacidade de expressão artística é particular a cada pessoa

na manifestação da criatividade com materiais e recursos artísticos, a pessoa constrói uma obra,

a projeção é a base da criatividade artística

na obra criada, construída com uma série de decisões pessoais de seus autor, é revelado, por projeção, os conteúdos de suas percepções, pensamentos e sentimentos., tendo ou não consciência destes conteúdos.

De modo que a obra produzida é um espelho do mundo interno de seu autor, revelando não apenas suas características pessoais (possibilidades e limites), suas potencialidades, mas inclusive a maneira que esta pessoa se organiza em seus relacionamentos intrapessoal, interpessoal e com o Mundo

a obra artística é um verdadeiro registro da alma de seu autor, que se manifesta em uma linguagem muito peculiar, com símbolos particulares ao contexto do momento histórico de seu autor e particular ao contexto terapêutico,

 

O trabalho do terapeuta é laborioso

tanto ao momento da criação, quanto ao contexto, cabendo ao arteterapeuta a tarefa de transcodificar a linguagem contida na obra em linguagem verbal, para que seu próprio autor identifique a vida que se transforma .

papel do T: pedir desdobramentos, orientado pelo diálogo intuitivo e silencioso com a obra ou imagens pictórica que o autor/cliente processa. O autor também vivencia um diálogo silencioso e intuitivo para tomar as decisões, momento a momento, passo a passo, do que fazer.

Ao facilitar o diálogo o T facilita uma alternância ó Arteterapia en quanto Psicoterapia Alternativa (adjetivo)

O autor enquanto contemplador ajuda o T a dar sentido na obra produzida

 

 

 

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Minha curiosidade para conhecer a natureza humana e o meu compromisso em ser terapeuta, me despertaram para a necessidade de buscar continuamente procedimentos para aliviar o sofrimento da alma humana. As pessoas que me procuram para atendimento psicológico estão sofrendo elas não são necessariamente infelizes, mas estão infelizes o suficiente para procurar ajuda profissional.

 

 

Acho que meu destino, enquanto terapeuta e ser humano, é ajudar a despertar em cada pessoa, não apenas a sua identidade, mas também a sua orientação básica de vida. É ajudar as pessoas a fazerem escolhas por aquilo que pode aplacar a sede e a fome de existir amorosamente, garantindo uma existência feliz !

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

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COELHO , J. P. Dicionário da Literatura , 2º vol. , 3ª ed. , Porto/Portugal : Figueirinhas , 1982.

FERREIRA , A. B. H. Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa , S. Paulo : Edit. Nova Fronteira e Folha de São Paulo , 1994.

GUIMARÃES , R. (1996) Dicionário da Mitologia Grega . S. Paulo : Cultrix.

LIEVEGOED ,B. (1976) Fases da Vida : Crises e Desenvolvimento da Individualidade. , Trad.: Jayme Kahan , 2ª ed. , S. Paulo : Edit. Antroposófica , 1991.

MARÍAS , J. (1941) Historia de la Filosofía. 17ª ediç. , Madrid : Revista de Occidente , 1964.

MORATO , H. T. P. (1974) Abordagem Humanista em Grupos com Adolescentes , Tese para obtenção do grau de Mestre em Ciencias apresentada ao Departamento de Psicologia Educacional da Universidade de Utah - USA.

ROGERS , C. R. (1980) Um Jeito de Ser Trad. e Rev. : Maria H. Patto , S. Paulo : EPU , 1983.

 

SANTOS , A. M. , ROGERS, C. R. , BOWEN , M. C. V. (1987) Quando fala o Coração : A Essência da Psicoterapia Centrada na Pessoa. , P. Alegre : Artes Médicas.

WOOD , J. K. et al. (1995) Abordagem Centrada na Pessoa. Org. e Trad. : John K. Wood et al. , 2ª ed. , Vitória : Edit. Fundação Ceciliano A. Almeida.