A Saga de Psyché :

A Evolução do Amor

na Humanidade e na Psicologia.

 

 

Dircenéa De Lázzari Corrêa

 

 

 

 

 

 

Trabalho apresentado durante a II Jornada Paulista de Gestalt , promovida pelo Instituto Sedes Sapientiae , nos dias 25, 26 e 27 de agosto de 2000 , em São Paulo (SP).

A Saga de Psyché :

A Evolução do Amor na Humanidade e na Psicologia.

Dircenéa De Lázzari Corrêa

 

Chegando aos poucos...

Quando Rosana e Lilian me convidaram a participar desta Jornada, escutei em meu interior "Mas o que eu vou fazer entre os Gestaltistas? Foi tão pequeno o meu percurso dentro da Gestalt, que eu não teria com o que contribuir..." Era como se meu lado de cientista exigisse de mim que eu fosse doutoradíssima em Gestalt para ter algum conhecimento a transmitir, que fosse digno de ser considerado como contribuição. Eu me sentia um pouco intimidada considerando o contexto da instituição Sedes Sapientiae.

Aquietei meu intelecto e meu coração, e assim comecei a escutar minhas emoções "Mas que tema instigante! Ficar, namorar, casar... tinha muito a ver com o momento de vida que eu atravessava, pois ansiava pelos rituais do meu segundo casamento! E o amor? Ah, tinha tudo a ver comigo e com as escolhas que tenho feito neste meio século de existência..." Percebi que me sentia envolvida pela provocação e propensa a me manifestar. Percebi que teria muito o que dizer a respeito deste assunto, mas fiquei de pensar, pois queria ser cautelosa em me comprometer com a Coordenação desta Jornada, pois nem sempre consigo controlar e determinar a produção de minhas atividades reflexivas, de modo a construir um estudo sistemático, digno de ser apresentado durante uma Jornada de estudos.

Mas Rosana e Lílian foram insistindo, ora eu me lembrava da sincronia surpreendentemente conseguida entre Rosana e eu , durante nossos trabalhos na 2ª Jornada de Psicologia Humanista, Conhecêmo-nos no momento da Mesa Redonda e trabalhamos como se tivéssemos combinado previamente o que cada uma iria comentar, como se fôssemos "velhas" companheiras de trabalho... Foi muito harmonioso e agradável o nosso trabalho em conjunto! Ora eu me lembrava do jeito vibrante de Lílian, era como se os olhinhos brilhantes dela piscassem como duas estrelinhas, me atraindo para estar perto dela...

Meu coração foi se animando, comecei a achar bobagem em não ser doutoradíssima em Gestalt e fui me encorajando para estar na Jornada levando um pouco de minhas reflexões sobre a busca de amor pela Humanidade e pela Psicologia...

Mas o que seria o Amor?

Esta questão foi se tornando fortemente presente em minha consciência, como um desdobramento natural de outros questionamentos que surgiram, aproximadamente em 1980, que convergiam para um mesmo ponto : como eu gostaria de orientar a minha vida...

Percebia-me em uma crise! Gosto de entender crise como "momento de escolha", mantendo-me fiel às raízes gregas desta palavra (crinem = escolher). Naquela época, em todos os aspectos que a vida pudesse se manifestar eu percebia um desconforto, como se a Vida estivesse me convocando para um encontro, um encontro comigo mesma...

Aceitei o desafio da Vida e iniciei minha jornada em busca de mim mesma, ou daquilo que fazia mais sentido para mim. Finalizei meu mestrado em Psicologia Experimental, um pouco para concluir uma tarefa e mais para não interromper algo importante e ficar com algo inacabado, pois durante anos eu acalentara o sonho da carreira acadêmica. Ainda hoje amo ensinar e educar, embora para mim a docência em instituições universitárias seja difícil de vivê-la. Amo a investigação e a pesquisa, embora abomine o controle ideológico das instituições de pesquisa, e a maneira desgastante, e quase desumana, para controlar produtividade acadêmica. Concluir o Mestrado foi como preparar a minha mochila de peregrina... A Vida estava "perdendo sentido", eu precisava e queria encontrar outros cenários, paisagens diferentes das que eu estava vivendo, estava disposta a peregrinar, a "andar em terras distantes" diferentes e estranhas ao conhecimento e hábitos adquiridos. Comecei minha peregrinação na vida profissional, e me dispus a "percorrer e conhecer diferentes partes" da Psicologia, em busca de uma Psicologia mais significativa para mim.

Em busca de uma Psicologia mais significativa ...

Fiz meu curso de Psicologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, numa época em que se acreditava piamente que a Ciência resolveria qualquer problema humano, inclusive as dores da alma. Naquela instituição de ensino, que acalentava o sonho de ser apenas uma Faculdade de Ciências, o Behaviorismo era considerado como a maneira mais viável de conferir à Psicologia as características do rigor científico. Aceitava-se a Metodologia Behaviorista, sendo praticada com muita parcimônia a reorganização das contingências ambientais, que determinariam um comportamento humano mais saudável. A comunidade de cientistas se orgulhava de extrair Conhecimento a partir dos estudos experimentais, tanto da vida animal quanto da vida humana, era encantadora a possibilidade de se construir um paradigma que fosse generalizável tanto para animais quanto para humanos. Era um sonho!

Demorei um pouco para perceber que esta crença cega, que determinava esta ótica, (e por que não, a Ética) para focalizar as possibilidades mais relevantes e controlá-las, de modo a restringir a conduta de um organismo, era apenas uma das modalidades do agir científico e não condizia com uma verdadeira atitude científica, de respeito e consideração à condição da liberdade dos "sujeitos experimentais". Demorei também a reconhecer que tal ética, embora necessária para os avanços e progressos da Ciência, não bastaria, ou seria suficiente, para compreender e explicar a complexidade da Natureza Humana.

Na minha vida de profissional, durante minha atuação terapêutica, eu ensaiava para me separar do apego a procedimentos diretivos e manipulativos. Comecei a me sentir desconfortável e pouco competente na minha rigidez determinística, quando atendi uma menina, que sofria de e com a enurese noturna, e o único procedimento que faltava experimentar era o controle aversivo de tal comportamento, ou seja, ministrar choque elétrico para suprimir o descontrole do xixi. A constatação da ineficácia das técnicas comportamentais para "curar" a enurese noturna daquela criança, foi o "agente deflagrador" de minha crise profissional (Corrêa, 2000 a, pag.6).

Eu precisava mudar! Eu precisava escolher algo diferente da escolha anterior, que já era uma re-escolha, pois decidi fazer Psicologia por me sentir atraída pela Psicanálise. Sofri uma crise de lealdade, pois teria que arriar a bandeira do Behaviorismo. Examinei o meu interior e percebi que eu queria algo que me ajudasse a cuidar das pessoas com mais amor e humanidade. Encorajei-me e me dispus a me separar daquele mundo conhecido, desapegando-me de sua ética, em que se buscava a segurança através do controle e das manipulações.

Iniciei minhas peregrinações. Caminhei um pouco pelo terreno da Gestalt, mas ainda carregava em minha mochila de peregrina o peso das dúvidas e das incertezas se realmente eu deveria buscar algo fora do contexto da Epistemologia mecanicista. Eu não entendia plenamente o meu movimento de mudar, e tinha dificuldades em aceitá-lo. Sentia como se fosse errado ter dúvidas e não ter controle dos fatos e previsão dos acontecimentos, ranço de pesquisadora positivista e mecanicista !

Percorri durante algum tempo os terrenos da Gestalt, foi um percurso de muitas descobertas, tão proveitoso como o "ficar"... Fui me assentando nos terrenos da Gestalt, detive-me o suficiente para ajustar em mim a certeza de que não somos tão responsáveis assim pelo jeito de ser do outro, a ponto de tentar modelar a conduta do outro, tendo como referência aquilo que é verdadeiro para mim. Foi um período tão promissor na minha vida quanto o "namorar", eu me encantava com o desejo compartilhado de conquistar atitudes de estar aqui e agora . Eu desejava "adquirir" habilidades que me ajudassem a "promover o processo de crescimento e desenvolver o potencial humano." (Perls, 1969, p.14). Aos pouquinos fui percebendo e compreendendo que eu precisava, simplesmente, desenvolver a expressividade do meu próprio potencial humano.

Meu percurso na Gestalt não resultou em casamento, eu sentia uma inquietação e, por algum tempo, a minha oração da Gestalterapia era uma pequena poesia de Perls (1969, p.14)...

"Mil flores de plástico

não fazem um deserto florescer,

Mil rostos vazios

Não podem uma sala vazia preencher."

...e o encontro com o Humanismo.

Sentia-me ainda um pouco vazia e me perguntava se como terapeuta eu teria condições de promover o florescimento de flores no deserto. Mas como a Vida é generosa, eu tive a sorte de em 1982-83, atender uma criança que se recusava em usar os brinquedos para se comunicar. Mas ela se expressava com muita clareza e vivacidade através dos desenhos. Percebi o quanto era fácil para mim, usar a linguagem pictórica, para perceber aquela criança, estar junto dela e compartilharmos os sentimentos e expectativas dela. E novamente eu me vi com vontade de continuar minhas peregrinações.

"Na manhã seguinte,

ao romper da alvorada, parti.

Com lentidão, com relutância.

Uma vez mais sem lar,

Partia para lugares estranhos,

Para reaprender tudo do princípio."

(Lobsang Rampa)

Para atender aquela criança busquei os recursos da Arteterapia e me espantei com o que encontrei, os terrenos das Artes Plásticas eram tão familiares e agradáveis para mim, que comecei a reconhecer a importância , para mim e para qualquer pessoa, de expressar o potencial artístico.

Encontrar-me com a Arteterapia me trouxe a compreensão de que o fazer artístico não visa apenas a realização do potencial humano com um compromisso estético ( ) , mas a realização do potencial humano com um compromisso da busca de si mesmo. Era maravilhoso conhecer a possibilidade de expressividade artística para se conquistar autoconhecimento com suficiência, para que a própria pessoa encontre soluções mais criativas e mais felizes para sua vida e seu viver.

A palavra compromisso traz um significado importante, pois este significado nos dá um sentido, uma orientação de vida. O compromisso nos dá uma diretiva/diretriz, em que organizamos um "acordo , uma promessa mais ou menos solene , a ser cumprida " (Ferreira, 1994, p.165). Afirmando mais uma vez para mim que estamos na Vida para nos realizarmos em sincronia com a Estética, com Harmonia, com o Belo.

Fortaleci em mim o compromisso de manifestar a minha própria tendência realizadora, sabendo que, para ser verdadeira comigo mesma e com a Vida, eu precisaria/necessitaria/buscaria evoluir, ou me manifestar de formas cada vez mais complexas, mais plenas e mais harmoniosas. Passei a concordar plenamente com Gide, escritor francês, que viveu fisicamente no período de 1869 a 1951 :

"A Arte nasce quando viver não é suficiente

para exprimir a vida."

Nesta mesma época me enamorei dos ensinamentos de Rogers. Encontrei-me com a Arteterapia e com a Abordagem Centrada na Pessoa, fui "ficando" com elas e nelas, sem conflitos de lealdade, pois eu sentia que uma abordagem complementava a outra, me enriquecendo como profissional e como pessoa. Fui me enamorando e me encantando com a profícua possibilidade da Arteterapia Humanista (Corrêa, 1999), e me casei com esta possibilidade. Fui me harmonizando comigo mesma, com o mundo, com meus relacionamentos, me sentindo capaz de promover o desabrochar de flores no deserto

A Arteterapia não possui uma teoria e metodologia própria, sendo necessário ao Arteterapeuta lançar mão de uma teoria, assim como de sua própria criatividade, intuição e habilidade de se expressar artisticamente, delineando passo a passo os seus procedimentos no processo terapêutico. Ou seria, pincelada por pincelada?

Compreender os ensinamentos de Rogers trouxe para mim a crença inabalável na viabilidade do crescimento pessoal, desde que a pessoa encontre oportunidades para amar e ser amada, através de relacionamentos amorosos, construídos através da escuta empática, atenção positiva incondicional e congruência. Estas três condições, necessárias e suficientes para promover o crescimento pessoal e a manifestação do potencial humano, são como os contornos cambiantes das pinturas impressionistas.

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São contornos pouco rígidos, ricos de luzes e cores, que apenas sugerem formas, exigindo da pessoa do profissional, uma interpretação pessoal sensorial e sensível, que resulta no desvelamento do próprio jeito de ser estar no Mundo, ou seja sua Visão de Homem e de Mundo.

Por estar comprometida com a minha própria interpretação pesoal de Vida, casei com a possibilidade de viver a Arteterapia através da Orientação Humanista, (Corrêa, 1999, p.7-8 ) como referencial para exercer a Psicologia e me relacionar com meu mundo interno e o mundo externo.

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Integrando contextos :

Psicologia Humanista , Abordagem Centrada na Pessoa,

Arteterapia e Impressionismo,

Ou uma terapeuta mais espiritualizada.

"O homem moderno, na sociedade materialista de hoje, acha que embarcou numa viagem através do deserto. Sua sede pode ser aplacada somente pela atenção repetida à provisão de conceitos e sentimentos que dão sentido a sua existência e colocam a totalidade de sua própria humanidade num mundo, tanto humano quanto espiritual, de valores estéticos e éticos." , (Lievegoed, 1976 , p.13) -

Ao ler esta citação em 1992, compreendi a importância de ser terapeuta humanista para resgatar no homem, não apenas sua identidade de indivíduo, mas também a sua humanidade. Buscar a sua essência, indo de encontro com a sua verdadeira natureza.

Mas o que seria essencial

para o indivíduo e para a Humanidade ?

Quais os valores, conceitos e sentimentos,

que poderiam afirmar o Homem,

tanto no mundo humano,

quanto no mundo espiritual?

Fui admitindo a existência do amor espiritual, compreendendo a sua importância e a responsabilidade e o compromisso de incluí-lo nos relacionamentos. Minha mochila de peregrina começou a ficar mais leve...

Através da Orientação Humanista encontrei terreno fértil para semear meu anseio pelo espiritual. Para Rogers, "as pessoas do futuro são indagadoras. Querem encontrar um sentido e um objetivo da vida que transcendam o individual" (1980, p. ). Seria encontrar algo que fizesse sentido não apenas para mim, mas que faria sentido para o outro.

O espiritual se refere a tudo aquilo que é "incorpóreo ; a parte imaterial do ser humano" (Ferreira, 1994, p.270), aquilo que objetivamente não é passível de se tornar matéria. São as impressões e os acontecimentos subjetivos, algo de natureza não concreta.

Busquei maneiras para melhor expressar os meus anseios espirituais, aguçando minha curiosidade em conhecer profundamente as questões da alma humana. Com a Arteterapia, encontrei recursos para registrar objetivamente, esteticamente e liricamente, o que pertencia ao mundo interno e incorpóreo de uma pessoa. As idéias podem ser representadas por imagens, as imagens plásticas são expressões destas idéias. Elas revelam as percepções de seus autores, referentes a qualquer assunto, que ficam registradas e documentadas em uma folha de papel, em uma tela, em uma escultura. São registros da alma, que podem ser interpretados subjetivamente por inúmeros observadores, e não apenas quantificados objetivamente. Fui aprendendo a olhar para a expressividade artística, em particular a linguagem pictórica, como uma forma de retratar fielmente a alma de seu autor. Em cada expressão se desvelam conteúdos presentes na consciência do autor/artista, mas também conteúdos que estão emergindo de seu inconsciente e que estão à borda de sua consciencia, ou pré-conscientes. Conteúdos estes que pertenciam à dimensão do imaterial, mas o trabalho de criar uma expressão para eles, resultou em uma obra, dando concretude à idéia, colocando-a na dimensão do material. Em cada expressão uma busca de harmonia e um encontro com o Belo. Tal como contemplar o belíssimo Arco das Rosas em Giverny (Monet, 1913) [ Fig. ] . Olhando de relance surge naturalmente a indagação, onde está o céu e onde está a terra... Aí percebemos o reflexo na água, confirmando o que o próprio Monet considerava "a água é o duplo da Vida". É assim que eu considero cada expressão artística de cada pessoa, um reflexo, um duplo de sua alma...

 

Para mim, encontrar a Abordagem Centrada na Pessoa, como referencial para exercer uma Psicologia mais humana e humanitária, fez com que eu prestasse mais atenção às dores da alma humana e tivesse mais consideração com as dores e anseios de minha própria alma. Mas casei com a Abordagem Centrada na Pessoa justo no momento que a comunidade abordada perdia o Pai Rogers e a Mãe Rachel Rosenberg ... Buscando a Abordagem encontrei a orfandade fazendo com que, ao mesmo tempo, eu me sentisse desamparada e me sentisse tal como ".... um rio caudaloso que, ao encontrar obstáculos limitadores, flui pelas saídas possíveis, à procura de um terreno que, com barrancos/limites, possa lhe servir de leito para acolher a força de suas águas... É assim que eu vejo a ACP... É assim como me vejo na ACP..." (Corrêa Navarro , 1989 , p.19)

Estar com a Abordagem Centrada e com a Arteterapia é como estar nesta tela [ Fig.8 : Monet , Impressão. Nascer do Sol. , 1873 ]

Contemplemos esta obra prima de Monet, Impressão. Nascer do Sol. Ofereçamos a nós a oportunidade de usufruir dela. Que mensagens ela nos traz? Que informações podemos extrair deste cenário? O que pode representar um amanhecer? Um caminhar mais seguro, tendo a claridade da luz do sol para mostrar detalhes do terreno... Conhecer detalhes pode ajudar a facilitar e a garantir um movimento sem quedas e com menos erros de direção... É uma mensagem de Esperança, fortalecendo em nosso interior a confiança de se conquistar o que se espera... E qual é o barquinho que não deseja chegar a uma porto seguro? Um barquinho em águas tranquilas pode confirmar a interpretação da caminhada segura... Lembremos que o barquinho é realisticamente, ou tem a função prática de ser um meio de transporte, ou seja, é uma das modalidades de nos transportarmos, deslocarmo-nos de um ponto a outro. O movimento nos sugere dinamismo e Vida, trazendo a idéia de esforço para se chegar a uma meta... A Esperança afirma em nosso interior a confiança de atingirmos o Amor... Neste barquinho, podemos ser ora timoneiros e conduzir, ora podemos ser passageiros e sermos conduzidos.

Esta belíssima tela de Monet, representa um marco importante na História da Arte, pois ela é a obra símbolo do Impressionismo, principal movimento artístico do século XIX.

Mas esta obra não é significativa apenas para a História da Arte. Ela cumpre uma das finalidades da Arte, que é revelar a tendência do movimento cultural, filosófico e o pensamento da época emergente, ajudando o Ser Humano a sair de onde estava. A Arte propulsiona a Humanidade para as mudanças padrões de pensamentos, de costumes e de sentimentos.

O Impressionismo mostrava paisagens e cenários, tal como em dias de neblina (Corrêa, 1998, p.5 ), com os contornos imprecisos, destacando a luminosidade e as cores, facilitando que o contemplador da obra, exercesse a própria interpretação pessoal, desvelando a verdade que fazia sentido ao contemplador, naquele momento particular da contemplação. A interpretação pessoal é favorecida pela ausência de contornos rígidos e pela presença de luz e cores, produzida por pinceladas rápidas e curtas. As verdades absolutas da Epistemologia mais acadêmica e determinista, às vezes funcionam como contornos rígidos, nos impedindo de destacarmos, para a nossa experiência sensorial e sensível, o jogo de cores e luzes, para que este jogo nos revele a nossa subjetividade, e a articulação da subjetividade do contemplador com a subjetividade do autor da obra.

O movimento Impressionista ajudou a humanidade não apenas a sair de onde estava, mas a evoluir, a progredir na maneira de ver , pensar e sentir o Mundo. A Humanidade circulava entre o pensamento romântico (ênfase na idéia de ideais, e de idealizações), o pensamento racional, o enaltecimento de idéias e dos heróis e temas heróicos, o pensamento naturalista (pintores naturalistas, "pintar o que se via com os próprios olhos"- G,p.393), como se fossem o fluxo e o refluxo de ondas do movimento cartesiano, Da Epistemologia determinista norteando as atitudes positivistas e mecanicistas. O movimento impressionista levou a Humanidade para ir de encontro com a subjetividade. Segundo Hauser (1969, ps.17-18), o movimento artístico da geração de 1830 (tanto da literatura quanto das artes plásticas), possibilitou emergir a dúvida sobre a Razão e sobre o sentido da realidade exterior. O sentido da obra de arte passou a oscilar entre uma ilusão ( algo imanente, separado da realidade) e uma função prática (determinada pela vida social). A essência da obra de arte passou a incluir a experiência estética direta e autônoma, caracterizando-se por ser uma ilusão perfeita com a necessidade da existência da "quarta parede", ou do público, do expectador, que ao participar autenticamente da contemplação da obra, além de desfrutá-la passou a ter autonomia suficiente para usar a própria imaginação para interpretar o sentido da obra, mesmo que o sentido dado pelo contemplador fosse necessariamente idêntico à intencionalidade do artista/autor da obra (Hauser, 1969. Ps.34-35). As obras passaram a ter algo de inacabado, para que o contemplador desse se próprio acabamento à obra.

"O artista só era responsável ante sua própria sensibilidade pelo que pintava e como pintava .... tentava transferir sua impressão para a tela." (Gombrich, 1972, p.415), vencendo o que restava da antiga dominação do conhecimento sobre a visão (idem, p.417)

" A cor passou a ser mais importante do que o desenho, as temáticas passaram a ser aquilo que o pintor quisesse compartilhar, ou seja, a sua verdade momentânea. A "determinação dos pintores em representar o mundo tal como o via", fez com que emergisse um valor, o da sinceridade artística.

Com isso a Arte do século XIX, confirmava a função da arte florentina, na 2ª metade do século XV, resgatou para a Arte a função de "aumentar a beleza e as graças da vida". No período da Renascença Italiana, "tal função viria a ter um destaque cada vez maior. GOMBRICH (1972)p.201, expandindo e atualizando o movimento humanista nas Artes. A Pintura se estabelecendo com a função de pintar o que se vê, se separa da função de pintar o que se sabe, deixando de ser racional para ser mais sensorial, movimento este culminado pelo Impressionismo, em que a cor e o jogo de luzes se tornam mais importantes que os contornos. A quebra dos contornos pré-anunciaram a inviabilidade da Epistemologia mecanicista e do Pensamento linear para abarcar assuntos subjetivos. Captar um aspecto momentâneo do que era visto, exigia pinceladas mais rápidas e menos tempo para se misturar as cores, as formas foram se dissolvendo, bastando fornecer uma sugestão, necessitando que o observador da obra se "encarregasse" de construir a forma total que sabe estar ali". (G, p.412)

 

Percebo e reconheço, tanto na minha atuação profissional, quanto na vida pessoal, as cores do behaviorismo do humanismo, da arte e do espiritualismo. Acho que meu destino, enquanto terapeuta e ser humano, é ajudar a despertar em cada pessoa, não apenas a sua identidade, mas também a sua orientação básica de vida. É ajudar as pessoas a fazerem escolhas por aquilo que pode aplacar a sede e a fome de existir amorosamente, garantindo uma existência feliz !

Para mim, incluir o Impressionismo e ser Arteterapeuta, através dos recursos da Abordagem Centrada na Pessoa , é viver o amor espiritual, ou a busca de emoções mais enobrecidas, em que o próprio bem estar e o bem estar do outro se sincronizam como uma folha desprendida da árvore, bailando ao sabor da suavidade do vento... É como estar nesta tela de Monet (1879), O campo das Papoulas.

É como estar neste campo, no momento em que a suavidade da brisa enxuga o nosso suor, nos refrescando e assim restauramos forças para o nosso agir... É deixar inebriar-se pelos perfumes das flores, entregando-se para aquilo que a Vida proporciona de melhor... É estar acompanhada pela solidariedade humana, trabalhando junto e em com-junto para colher flores, formar graciosos ramalhetes e distribuí-los ao mundo... Ramalhetes que , momento a momento perdem a forma antiga para incluir mais uma papoula recém colhida, trazendo em si o frescor da umidade da terra... E neste jogo de reconstruções de ramalhetes e buquês a Vida se faz presente nos dando a chance de expandirmos a capacidade de amar e de ser amado...

É como organizar um buquê, nos desprendendo das flores envelhecidas e murchas, substituindo-as a todo momento por flores recém colhidas, atualizando a beleza do ornamento, e o perfume que exala das flores...

 

Em busca dos significados de Psyché ,

encontrando sentido para a Humanidade e para a Psicologia

 

Arroyo, 1975, p.27

"Na vida cotidiana, o lado espiritual do homem é inseparável da vida psicológica. A própria derivação da palavra "psicologia" revela a estreita relação entre a mente do homem e a sua natureza espiritual. A palavra grega psyche tinha originalmente dois significados. O primeiro deles é melhor traduzido como alma, isto é, a mais profunda fonte de vida no homem. O segundo era borboleta , que tinha conotação de espírito imortal, impregnando a natureza inteira e cada ser humano." [ Fig. 10 ]

 

A palavra psicologia perdeu seu sentido imaterial, a partir do momento que os estudiosos de Psicologia desejaram atribuir à Psicologia as características de uma ciência objetiva, para atender aos rigores de exatidão das ciência determinista e experimental. Criou-se um impasse, como manipular e controlar variáveis para medir alma, espírito imortal, natureza inteira, natureza impregnada de alma. A experiência pode ser sensorial, mas de difícil mensuração objetiva.

A Psicologia é definida em nossos dicionários como a ciência dos fenômenos psíquicos (Ferreira, 1994, p.536)

Encontrando a possibilidade de viver uma Psicologia mais espiritualizada, comecei a prestar mais atenção às dores da alma humana e tivesse mais consideração com as dores e anseios de minha própria alma. Passei a considerar que a alma poderia ser considerada uma fenômeno psíquico, e não apenas um fenômeno religioso. Para mim, alma é a essência, ou sopro de vida de um ser. Um ser em qualquer forma de Vida, a humana, a animal, a vegetal, a mineral...

Minha curiosidade para conhecer a natureza humana e o meu compromisso em ser terapeuta, me despertaram para a necessidade de buscar continuamente procedimentos para aliviar o sofrimento da alma humana. As pessoas que me procuram para atendimento psicológico estão sofrendo elas não são necessariamente infelizes, mas estão infelizes o suficiente para procurar ajuda profissional.

Meu compromisso com a manifestação e a realização de minhas próprias potencialidades, ou seja, meu compromisso como um ser em evolução no mundo, despertaram em mim a necessidade de conhecer e estudar a alma e as dores da alma, e o desejo de aprender a "curar" para aliviar as pessoas de seus sofrimentos emocionais. E ao escutar as dores e anseios de minha alma busquei com firmeza a plasticidade dos recursos artísticos para a expressão de sentimentos, de pensamentos, de percepções. Busquei a Arte enquanto elemento facilitador da expressividade da alma e encontrei na Arte uma excelente condição de aprendizagem para reconstruir atitudes

Comecei a dar outro sentido para a dor humana, talvez o sofrimento, tal como o estrume, pudesse constituir adubo para a terra durante a semeadura, fortalecendo o solo para a germinação das sementes...

 

Não podemos nos esquecer que a palavra psicologia é derivada do grego psyché , ou alma , e logos , ou estudo. O campo de atuação da Psicologia é configurado por aquilo que seu próprio nome diz, o estudo da alma, ou o estudo e a investigação da essência humana. Sempre que me deparo com a palavra essência, imediatamente se faz presente em minha consciência, um de seus significados mais pertinentes, sopro de vida.

Estudar, investigar, compreender, conhecer e explicar os fenômenos psíquicos, enquanto manifestação da alma humana, ou daquilo que é essencial aos atributos humanos, daquilo que traz sopro de vida...

Mas o que seria um atributo essencialmente humano ?

O que faz parte da alma humana ?

A capacidade para amar ?

E o sofrimento e a dor afetiva ?

Fariam parte da alma humana ?

 

 

 

A Saga de Psyché

 

Ao examinar estas questões percebo em mim um desejo de rever a historia de Psiquê. Na mitologia grega (Guimarães, 1996, p.267-268), Psiquê era a personificação da alma, geralmente representada por uma figura feminina, mais menina do que mulher, com asas de borboleta. As crenças gregas populares concebiam a alma como uma borboleta, e uma pessoa ao morrer , ou quando sua alma se desligava e escapava do corpo, a alma se apresentava na forma de uma borboleta. [ Estando aí as raízes do significado simbólico da borboleta como indício de transformação.]

Psiquê simboliza o princípio de alma, a qualidade da vida que se transforma.

Qual a aprendizagem profunda e misteriosa contida na mitologia grega e romana?

Os mitos narram as aventuras na jornada de um herói. Herói é aquele que se lança no caminho da auto-conquista. É aquele que buscará deliberadamente o caminho evolutivo, que se auto-conquista, conquista o corpo, vence paixões, domina emoções, administra sentimentos.

A auto-conquista equivale a um processo de transformação.( Cid Marcus Vasques , 1996.)

 

 

Sharman-Burke e Greene, Pag. 108 ) : "A lenda de Eros e Psiquê é, na realidade, a estória da evolução e do amadurecimento dos sentimentos, e a capacidade do indivíduo se relacionar com outra pessoa." [ à medida que a pessoa amadurece ela amplia a capacidade de escuta empática , de atenção positiva incondicional e a própria congruência, diversificando quase infinitamente os recursos que lhe permitem atualizar a auto realização. O ser se torna mais complexo - tendência formativa - e paradoxalmente complexa e sintética a maneira de estar no mundo e de se relacionar com o outro e consigo mesmo ] imagem sobre o Infinito

 

Na mitologia grega Psiquê foi uma linda jovem, filha de um rei, cujos súditos admiravam tanto a sua beleza que a comparavam com a beleza de Afrodite, a deusa do Amor.

BURKE e GREENE : (p.110-111 )

Ás de copas : é representado por Afrodite,

no momento de seu nascimento, uma jovem nua com longos e fartos cabelos negros [ nudez => ausência de dissimulações ; intimidade pura .

Cabelos negros => luto pela castração de Urano ; indicador da necessidade de mecanismos repressores para que a paixão não chegue à bestialidade, pois entregar-se ao amor bestial é como caminhar no negror da noite ;

Longos e fartos cabelos => força do Amor ; abundância dos sentimentos, impulsionando o indivíduo para um relacionamento ]

p.110 : simboliza a ânsia de relacionamento, ou o potencial para a realização de relacionamentos.

"Afrodite, nascida das espumas das águas, [ Fig. , Botticelli, 1485, O Nascimento de Vênus ] ( espuma = formada à volta da genitália de Urano, cortada pelo seu filho Cronos, oara se vingar das crueldades do pai ; uma das Horas, deusas das estações, tem nas mãos um manto escarlate, preparado com flores primaveris. A Primavera era a estação dedicada a Vênus : é a altura dos amores - tradição que chegou até os nossos dias (Deimling, 1995, p.51-52 ; p.7 : Botticelli (1444/45-1510) foi protegido pelos Vespucci, amigos dos Médici) deusa do Amor em todos os aspectos, desde o mais puro até o mais bestial .... foi uma deusa complexa. A essência da beleza feminina, onde tudo irradiava encanto e harmonia. Contudo, conseguia também ser ciumenta, fútil, traiçoeira, preguiçosa e vingativa." [ amor enquanto força motivacional, que se manifesta tanto de modo nobre quanto de modo bestial ] [ interpretar a presença dos quatro elementos fundamentais - água, ar, terra, fogo - V. Arroyo, 1975, p.106-112 ]

fogo e ar = ativos e auto expressivos

água e terra = passivos, receptivos e auto-repressivos

água (p.110-111) : "representa o reino da emoção profunda e das reações aos sentimentos. Por sua própria natureza, os sentimentos são parcialmente inconscientes .... " [ Por mais límpida que seja uma água, a sua transparência não é perfeita, produz imagens distorcidas. ] (Blofeld, In Arroyo = "a agua é submissa, mas conquista tudo. A água conquista submetendo-se, nunca ataca, mas sempre ganha a última batalha. A água cede passagem para os obstáculos com uma humildade enganadora, pois nenhum poder pode impedí-la de seguir o seu caminho traçado rumo ao mar."

ar (pag.108-109) = " .... é a energia vital ; domina o mundo das idéias arquetípicas , que estão atrás do véu físico ; focaliza a energia em idéias que ainda não se materializaram, convertendo a energia cósmica em padrões de pensamentos específicos."

Terra (p.111-112) = "sintoniza com o mundo das formas ; raciocínio prático, compreensão de como o mundo material funciona ; indica ao indivíduo como estar em contato com os sentidos físicos e com a realidade do aqui-e-agora do mundo material ; "

Fogo (p.107-108) = "se refere a uma energia irradiante, excitável e entusiástica, através de sua luz, dá colorido ao mundo ; decisão, fé em si mesmo, entusiasmo ; " [ manto púrpura para cobrir Afrodite, revestir Afrodite da energia do elemento fogo, dar a aparência de fogo ]

"Derramava nas coisas da natureza toda sua alegria de viver, ...." (Greene)

[ energia feminina => irradiante , encantadora , harmoniosa , quando enobrecida , amadurecida e altruísta ]

".... ao mesmo tempo que atuava como temível.... pois podia preencher os corações dos humanos com o frenesi da paixão.

[ Frenesi (p.308) = entusiasmo delirante, excitação, arrebatamento ;

paixão (p.475) = sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade, sobrepondo-se à lucidez e à razão ]

Todos aqueles que Afrodite escolhia como vítima eram quase sempre infelizes, pois por causa dela, abandonariam e trairiam a própria família .... [ abandonariam, trairiam e transgrediriam valores mais enobrecidos ]

Afrodite, por ter duas tradições de nascimento, ora manifestava o amor puro, ora o amor vulgar e carnal ficara enciumada com as comparações dos súditos de Psiquê. Afrodite manifestou seu ciúmes de modo que se afastassem de Psiquê seus pretendentes a casamento, desse modo ela foi ficando sozinha, sem que nenhum homem a quisesse como esposa. A solidão de Psiquê não aplacou o despeito de Afrodite, que ordenou que seu filho Eros, deus da força fundamental do mundo, o Amor (p.140), matasse Psiquê. Porém, Eros ao conhecer Psiquê apaixonou-se perdidamente por ela [ trazendo como força fundamental para a Humanidade a promessa de que o amor, ao se entregar plenamente à alma e tomando conta dela, tem, essencialmente, como resultado, a recuperação do sopro de vida, a revitalização dos processos de Vida ].

Eros ordenou que Zéfiro, o vento oeste que personificava o céu estrelado, trouxesse Psiquê para seu palácio[ anunciando para a Humanidade que a entrega apaixonada, ou perder-se na entrega de amor, nos associa ao conhecimento romântico ].

Por ser uma divindade, Eros se apresentava invisível aos olhos físicos da mortal Psiquê, mas esta, com sua sensibilidade e romantismo, aceitou e se enamorou do pretendente, mesmo sem vê-lo e sem conhecer a sua identidade, confiando e se entregando aos seus cuidados [ seguiu cegamente apenas o que as emoções pediam a ela]. Mas Psiquê sentiu saudades dos familiares [ ou da concretude do mundo físico ] , sentindo-se novamente solitária, sem os seus iguais, os seres físicos como ela. Eros, não conseguindo dissuadir Psiquê, novamente encarregou Zéfiro para levá-la à terra de seus familiares. Ao encontrar com suas invejosas irmãs, esta convenceram Psiquê a conhecer o misterioso esposo [ despertando em Psiquê a dúvida e a necessidade de conceber a realidade e a verdade através da verificação experimental , sensorial e aparentemente objetiva, orientada pela curiosidade, inveja e desrespeito ]. Psiquê , com esta decisão, iria contrariar o pedido de Eros, de que nunca procurasse ver as suas feições. Ao buscar a comprovação objetiva de quem era seu esposo, por infelicidade da sorte, ao realizar tal verificação experimental, Psiquê ficou tão encantada com a beleza de seu esposo, deixando cair no rosto de Eros adormecido, um pouco do óleo quente que alimentava a luz de sua lâmpada. Eros se despertou cheio de dores, dores físicas provocada pela queimadura, dores morais provocadas pela desobediência e traição de Psiquê à promessa, dores afetivas com a ingratidão e crueldade de Psiquê [ a busca do conhecimento objetivo, para honrar a objetividade e a curiosidade de um outro, e não daquela que investiga, faz com que o investigador cometa atos que podem ferir a integridade a pessoa investigada e de si mesmo ; seria isto um conhecimento verdadeiramente objetivo? ]. Enraivecido e magoado, Eros abandonou a esposa. Psiquê saiu errando pelo mundo, em busca do amor perdido, implorando ajuda a todos os deuses, mas nenhum deles quis ajudá-la, pois ela incorrera ao grave erro de uma mortal se casar com uma divindade, sem pedir o consentimento dos deuses.

Apenas Afrodite, a deusa do amor ambíguo, a acolheu, não para ajudá-la, mas para se vingar de Psiquê, que conquistara o coração de Eros. Prometendo facilitar a conciliação entre Psiquê e seu filho Eros, Afrodite deu-lhe tarefas tão difíceis, que Psiquê ia cumprindo com a ajuda de divindades compadecidas ao amor impossível dela [ dificuldade da Psicologia em construir a própria identidade , facilidade da Psicologia se afirmar através de outras ciências ].

Mas Psiquê, novamente não resistiu à busca de objetividade para satisfazer sua curiosidade, e, "No caminho de volta dos infernos, por irresistível curiosidade, abriu o frasco e caiu num sono profundo [ como se fosse castigada todas as vezes que se rebelasse às regras ].... Eros, desesperado de amor e saudades, se pôs a procurá-la e com isto mostrando que o arrependimento, além do amor, também é uma força fundamental à humanidade ]... foi encontrá-la entregue ao sono mágico .... despertou-a com um adejo de asas [ um pouco de lirismo e de renovação de ar para combater a magia dos castigos ] .... levou-a até ao Olimpo e suplicou a Zeus para desposá-la arrependeu-se da rebeldia e podendo agora respeitar a hierarquia ] , que deu-lhes a permissão [ mostrando que as regras e leis podem ter exceção ] e ordenou que Afrodite se reconciliasse com ela [ exigindo uma organização de paz e solidariedade ], concedeu à bela moça a imortalidade [ ou a promessa de que a humanidade pode evoluir através do amor dedicado ]."

 

 

 

 

BELEZA PERTURBADORA => Eros se descuidando de suas flechas, feriu-se com uma delas, se enamorando perdidamente por Psichê, pois nem os deusses imortais eram imunes ao veneno da flechas de Eros, fazendo com que as pessoas se apaixonassem subitamente [ paixão X amor ]

Perturbar-se com a beleza é estar entregue a uma paixão bestial, ou a uma amor menos enobrecido, pois a

ROLLO MAY , Minha busca da Beleza

Pag.38 : "A Beleza é aquela experiência que nos dá, simultaneamente, um sentimento de alegria e um sentimento de paz.... é serena e, ao mesmo tempo, estimulante ; ela aumenta a nossa consciência do fato de estarmos vivos. A Beleza nos dá o sentimento de admiração, a capacidade de admiração nos traz a consciência de que não podemos jamais explicar completamente a experiência interior da beleza, .... pois estaremos reduzindo a experiência em tagarelice objetiva pag.41) ... ela também nos dota, ao mesmo tempo, de um tipo de intemporalidade, de sossego ... falamos como sendo eterna [ serenidade ]

pag.41 : "Nossa época não é uma época em que a Beleza ocupa um lugar seguro..."

DOIS DE COPAS (ps. 111-112)

O encontro entre Eros e Psyché ou o momento da atração [ Fig. , Monet, Ninféias, à tarde , 1897-98 ]

 

 

Três de copas : (p.112-114) É o momento do casamento, [ Fig. , Mandala em vitral ]em que se celebra o Amor e a Vida. E um momento de Esperança, em que a noiva enfeitada de flores e de branco, simboliza a pureza de intenções os enamorados, a confiança ingênua de que o encantamento do namoro permanecerá eternamente. É uma situação promissora de realização emocional.

Mas, geralmente é um momento de confiança cega, pois Psyché ainda não viu seu noivo, não questiona o pedido de Eros e decide obedecer o pedido de não vê-lo,, apenas sentí-lo. [ Fig. , Toulouse-Lautrec , Paul Viaud como Almirante , 1901] Ao aceitar esta regra, Psyché e Eros convencionaram, com elegância , sem brigas e confrontos, de que a ingenuidade e o romantismo do amor idealizada, condenaram o relacionamento à escuridão, à cegueira. Sem confrontos, não se pode conhecer verdadeiramente as possibilidades e os limites de um relacionamento. Há o ritual do casamento, mas ainda não houve um encontro real e sólido.

 

 

Quatro de copas : o desapontamento e a solidão [ Fig. , Monet , Mulheres no Jardim , 1866 ] A cegueira e a ingenuidade despertam o descontentamento e a sensação de que alguma coisa não está certo. As invejosas irmãs de Psyché, sussurram insinuações despertando dúvidas em Psyché sobre Eros :

Por que não se mostra ?

Por que não se revela ?

Quem realmente é ?

O que faz?

A desconfiança toma conta de Psyché, as insinuações acumuladas ao desconforto de uma relação não plena, faz com que ela se perceba acabrunhada e escondida, sem poder usufruir da beleza dos tons dourados do sol e dos lilases das flores. [ Fig. , Monet , Lilazes em tempo cinzento , 1872 ]

 

 

 

Cinco de copas : em busca da realidade

Psyché, instigada pelas irmãs invejosas e ciumentas, decide romper com o que foi convencionado com Eros, nunca lhe ver o rosto e nem querer saber a sua verdadeira identidade. Resolve traí-lo para sair da ingênua cegueira em que se encontrava.

A traição provoca a ira de Eros e Psyché se percebe sozinha, [ Fig. , Monet , Mar agitado em Etretat , 1883 ] como se estivesse diante do mar revolto. Sua curiosidade e a necessidade de um relacionamento autêntico a colocaram em uma tempestade. O mar agitado e revolto mostrando sua força ameaçando e intimidando. Mas, na beira da praia estão frágeis barquinho e dois pescadores. Como se provocassem Psyché a iniciar a sua jornada de heroína. E um herói enfrenta a sua jornada, quando ele não mais desejar viver ao acaso, sem liberdade de escolher, sem se comprometer com a realização pessoal. É o momento da auto conquista, em que o herói deverá enfrentar e superar os obstáculos que a Vida proporciona, quando preferimos a ingenuidade, a cegueira das paixões sem questionarmos o significado delas, sendo então necessário se separar do mundo fechado em que se encontrava, o jeito de estar no mundo vai perdendo os contornos [ Fig. 20 , Monet , Ninféias ] (mas não necessariamente se separar dos relacionamentos).

Tomar de um barquinho, com ou sem timoneiro, se lançar ao mar, buscar a si mesmo para encontrar maneiras mais significativas e mais amorosas para se estar no Mundo.

 

 

 

Seis de copas : fase da nostalgia , dor da perda

[ Fig. , Monet , Mulher olhando à esquerda , 1886 ]

A cegueira terminou, os sonhos e as ilusões foram perdidos, ficando a experiência da coragem de se entrar em contato com a realidade. Os castelos se desmoronaram, mas foram construídos no ar, só de idéias e de sensações, ficando em seu lugar a saudade... Psyché se sente uma exilada, não se encontrando mais no lindo castelo do deus Eros... Em sua quietude e solidão, sente falta do seu amado, tal como a serenidade da brisa, anseia e sonha com o reencontro... Está estática, em seu interior as idéias e a saudade dançam como a echarpe azul desta mulher, a ponta solta como se acenasse para Eros, o deus do Amor... Neste instante a Alma anseia pelo Amor, pela realização afetiva, pela complementação de um relacionamento ...

 

Mas como a mortal Psyché poderia reencontrar seu amado Deus Eros ?

Mas como transpor o abismo que separa o humano da divindade?

[ Fig. , Monet, A Ponte Japonesa em Tom Verde , 1899 ]

Neste momento, recuperando a Esperança, Psyché se Lembra de Afrodite, deusa do Amor, e lhe pede auxílio e a proteção de seu manto escarlate primaveril. É momento da energia do Fogo, que, com sua luz, dá colorido ao Mundo ... [ Fig. , Monet, Meda de Feno ao Por do Sol , 1891 ]

Psyché se rende à Primavera, recebendo dela a energia plasmadora, que ativa sua criatividade e Esperança, restaurando nela não apenas a confiança em suas potencialidades, mas o compromisso de aceitar os desafios da Vida para que as espinhosas tarefas impostas por Afrodite desabrochem em flores... [ Fig. , Recebendo a Primavera , 1990 ]

 

Psyché "desce aos infernos", inundando-se na crueldade dos sentimentos bestiais de Afrodite (vingança, ciúmes , inveja ) "Descer aos infernos" é descer ao mundo do inconsciente, se só olharmos para trás e ficarmos olhando, vira-se estátua. Passagem bíblica -> personagem ao fugir (?) da torre de Babel olhou para trás e virou estátua.(Vasques, 1996) [ Fig. , Monet , Chuva , 1886 ] ,

mas movida pela auto-confiança conquistada e confirmada em cada etapa vencida. Movida pelas lembranças de seu idílio amoroso e pela esperança de que ela e Eros poderiam se harmonizar e se complementarem tal qual uma flor e uma borboleta [ Fig. , flores e borboleta ] As borboletas precisam das flores para dela sugarem o néctar, e as flores precisam das borboletas para que o néctar delas não seja criado em vão.

 

Mas Zeus se compadece de Psyché, convencido na renovação de sua capacidade para amar, não era mais aquele amor cego e ingênuo, mas um amor permeado pela Esperança, comprometida em seguir o fluxo da Vida, fosse ele suave ou duro, abandonando as brumas da inocência/ignorância, almejando compartilhar com Eros as vitórias dos esforços de sua auto-conquista e juntos, encontrarem sentido na Vida.. Zeus ordena a Afrodite que se reconcilie com Psyché, perdoando a ela e a Eros por transgredirem as leis da impossibilidade de um relacionamento entre um mortal e uma divindade, concede à Psyché a imortalidade...

 

A jornada da peregrinação e da autoconquista [ Fig. , Monet, Caminho no Jardim do Artista , 1901-02 ]

História da flor de lótus [ Figura na pagina inicial]

Evolução do Amor : do egoísmo ao altruísmo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS

ARROYO , S. (1975) Astrologia, Psicologia e os Quatro Elementos. Trad. De Maio Miranda, S. Paulo : Editora Pensamento , 2ª ed. 1985.

CORRÊA , D. L. (1999) Arteterapia : Uma Manifestação possível à Psicologia Humanista. Como eu vivo a Arteterapia. Trabalho apresentado no Congresso de Arteterapia , no MASP , São Paulo , 02 de dezembro de 1999.

CORRÊA , D. L. (2000 a) Ludoterapia Centrada na Pessoa : A Psicoterapia Infantil através da Abordagem Centrada na Pessoa e da Arteterapia. Mini Curso ministrado durante o II Encontro de Psicologia Humanista do Interior de São Paulo , Campinas , 20 a 23 de abril de 2000.

GOMBRICH , E. H. (1972) A História da Arte. Trad.: Álvaro Cabral , R. Janeiro : Ed. Guanabara , 4ª Ed. , 1988.

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HAUSER , A. (1969, III) História Social de la Literatura y el Arte. Madrid : Artes Gráficas Benzal.

PERLS , F. S. (1969) Gestalt-terapia Explicada. Trad.: George Schlesinger , 2ªed. , S. Paulo : Summus , 1977.

SHARMAN-BURKE , J. e GREENE , L. (1988) O Tarô Mitológico. Trad.: Anna M. D. Luche , S. Paulo : Siciliano , 1988.

VASQUES, C. M. (1966) Os Doze Trabalhos de Hércules , Curso ministrado durante o Programa Cultural Prometeus , com duração de 12 horas, realizado em Ribeirão Preto (SP).

GOMBRICH (1972) :

p.395-398 : A Revolução Industrial provocou a destruição das tradições, movimento este que provocou mudanças drásticas na maneira que os artistas viviam e trabalhavam. Os frutos mais visíveis destas mudanças começaram a ser notados na arquitetura francesa, deixando de "estudar para imitar estilos passados", começando a "projetar as construções adaptadas às finalidades a que se destinavam, escolas, fábricas, estações ferroviárias." A pintura foi a Arte mais afetada por estas mudanças, "quanto mais ampla se tornava a gama de opções, menos provável era que o gosto do artista coincidisse com o do público". As Artes Plásticas passaram a ser "um perfeito meio para se expressar a individualidade, desde que o artista tivesse uma individualidade a expressar