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LUDOTERAPIA CENTRADA NA PESSOA

 

OU

 

 

A PSICOTERAPIA INFANTIL ATRAVÉS DA

ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA

E DA ARTETERAPIA

 

 

Dircenéa De Lázzari Corrêa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  1. Mini Curso ministrado durante o II Encontro de Psicologia Humanista do Interior de São Paulo , Campinas , 20 a 23 de abril de 2000

 

 

 

 

 

Ludoterapia Centrada na Pessoa :

A PSICOTERAFIA INFANTIL ATRAVÉS DA

ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA

E DA ARTETERAPIA

Dircenéa De Lázzari Corrêa

Após o convite de Adriano Holanda, fiquei alguns dias hesitante, pensativa e preocupada, pensando o que deveria levar para um minicurso sobre LUDOTERAPIA CENTRADA NA PESSOA.

Como uma de minhas tarefas seria escrever um texto sobre o assunto, ficava muito viva dentro de mim a imagem de uma tesoura, ao mesmo tempo eu prestava atenção em trechos das gostosas conversas que tivera com Adriano. A satisfação em nossos contatos, quando confirmamos, um para o outro, a nossa capacidade de encontrar/buscar, de encontrar/descobrir, de encontrar/defrontar, de encontrar/deparar, de encontrar/encontrar-se... Tal como se nós dois, vivendo em pontos geográficos distantes, aproveitássemos a oportunidade de encontros como o desta Semana, para apoiarmos as vigas de nossas estruturas e usufruirmos da segurança de uma ponte, para atravessarmos de uma margem à outra usufruindo da segurança( esta idéia de encontro é de Ferreira, 1994, p.245).

E quais seriam as nossas vigas?

E a nossa estrutura?

 

UM POUCO DA MINHA HISTÓRIA ou ME APRESENTANDO

A palavra estrutura me traz a idéia de "composição ; disposição e ordem das partes num todo (Ferreira, 1994, p.279). Fui construindo a minha trajetória profissional, me aventurando, me entregando às experiências que despertavam em mim a curiosidade, o desejo de aprender e de compreender. Foram experiências bem diversificadas, a maioria delas dentro do terreno da Psicologia Clínica. Hoje percebo que essas experiências foram as minhas vigas, as "peças de sustentação horizontal", ou o meu chão, o chão que eu pude implantar as minhas "traves". E cada reflexão que eu fazia sobre o sentido de minhas experiências, me serviram de matéria prima para compor e construir a organização do meu "travejamento" (conjunto de vigas de uma construção". As idéias são de Ferreira, 1994, p.673).

Aí comecei a compreender o sentido da imagem da tesoura :

O que recortar das minhas experiências?

O que trazer do trabalho

Que tenho desenvolvido,

quando pais me solicitam

ajuda psicoterápica

para um filho em especial?

 

 

Comecei a perceber um desejo vivo dentro de mim. Preferi imaginar que já estava na Semana do Encontro, aqui com voces e com isto fui me encorajando para aproveitar a esta ocasião para compartilhar, com quem pudesse se interessar, pelo trabalho que tenho desenvolvido na psicoterapia infantil. Comecei a vislumbrar a 2ª semana de Psicologia Humanista como uma boa oportunidade para atualizar, na forma escrita e falada, a sistematização do trabalho que tenho desenvolvido desde 1971 e, especialmente desde 1989, quando comecei a organizar a minha experiência clínica, escrevendo o que tenho realizado, através de meu trabalho profissional com crianças, tendo como referencial a Abordagem Centrada na Pessoa.

Fiquei mentalmente preparando um balancete dos meus movimentos nos últimos anos, na tentativa de rastrear as minhas principais mudanças. Fui revendo minha trajetória...

O projeto de escrever para o II Encontro e apresentar meu trabalho clínico com crianças foi crescendo dentro de mim e batizei o "filho" antes que nascesse, me comprometendo, com Adriano e comigo mesma, a levar um pouco da minha experiência. Já tenho apresentado o meu trabalho clínico em outros eventos científicos, mas pensei que seria uma boa oportunidade rever e atualizar o que já sistematizara, na esperança de incluir agora as minhas mais recentes transformações pessoais e profissionais.

Eu me ocupava da organização da apresentação deste trabalho e do outro, acumulando a esse fazer criativo todas as tarefas que habitualmente me dedico : consultório, casa, família, estudos, passeios, bordados, jardinagem - ikebanas e bonsais, etc..

Sentada na cozinha de minha casa, enquanto cuidava das goiabadas domingueiras, escutando o borbulhar do doce, lembrava do sentido do Ritual do Chá, escutar o silêncio interior... Senti, através de mim, passar a força plasmadora da Natureza durante a época da Primavera e do Outono (se é que dá para falar de outono neste nosso país tropical...) Era momento de florir, enfeitando minhas idéias e projetos, recriar sobre o já criado ! Era momento de frutificar, espalhando sementes, que pudessem germinar em corações amantes de crianças...

Lembrei de um comentário de Henriette Morato no final de uma aula que apresentei para os alunos do 5º ano de psicologia da USP-SP, no ano de 1995 : "Ela não trouxe tudo", no sentido de que eu não me trouxera inteira. Estava claro para mim que ela se referia a uma grande mudança, talvez a principal, que realizei em minha vida : uma Dircenéa mais espiritualizada, mais distante das ciências e mais próxima das artes ! Talvez pudesse ser um bom momento para semear...

Espero conseguir trazer a voces tudo o que já conquistei !

Comecei a me sentir na Primavera fértil de idéias, com uma vontade tão firme quanto a terra, de me preparar para a apresentação da maneira que realizo o Atendimento Infantil. Fui me preparando escrevendo sobre a apresentação, com um desejo e uma curiosidade de estar no contexto real, encontrar-me com as pessoas presentes, conhecer novas pessoas e conhecer melhor as pessoas com quem iria me encontrar.

Neste momento parece que realizei uma "abordagem" ou cheguei "à beira ou à borda" (Ferreira, 1994,p.4) do encontro com as pessoas que estariam no II Encontro. Comecei então a me preocupar com o efeito de abordar as pessoas, ou melhor comecei a me ocupar, imaginativamente, com os possíveis resultados das intenções de meu agir. De modo algum queria que meu agir provocasse um "abalroar para tomar de assalto" (Ferreira, 1994,p.4), ou um abordar através de invasões e de falas desarticuladas do contexto de cada pessoa. Desejei muito fortemente encontrar as minhas melhores maneiras de atuação que pudessem beneficiar as pessoas e, ao mesmo tempo, me beneficiar com a presença dela. Eu queria facilitar um achegar com aconchego, em lealdade a minhas posturas profissionais e pessoais : revigorar nas pessoas as emoções, a própria identidade, para que elas enfrentem com confiança os embates que a Vida impõe. É uma expectativa que me lembra desta tela "Buscando" , em que a flor busca a luz do sol, o sol que clareia os contornos das figuras e formas que se encontram na Natureza, contornos que ficam tão imprecisos quanto estamos na escuridão de uma sem estrelas e sem o brilho da lua, quando estamos confusos e sem pontos norteadores.

Mas o que seria um achegar com aconchego ?

Ou então :

O que seria para mim a Abordagem Centrada na Pessoa ?

Como eu vivo esta Abordagem ?

Para mim, encontrar a Abordagem Centrada na Pessoa, como referencial para exercer a Psicologia e me relacionar com meu mundo interno e o mundo externo, fez com que eu prestasse mais atenção às dores da alma humana e tivesse mais consideração com as dores e anseios de minha própria alma. Mas descobri a Abordagem Centrada na Pessoa justo no momento que a comunidade abordada perdia o Pai Rogers e a Mãe Rachel Rosenberg ... Buscando a Abordagem encontrei a orfandade fazendo com que, ao mesmo tempo, eu me sentisse desamparada e me sentisse tal como ".... um rio caudaloso que, ao encontrar obstáculos limitadores, flui pelas saídas possíveis, à procura de um terreno que, com barrancos/limites, possa lhe servir de leito para acolher a força de suas águas... É assim que eu vejo a ACP... É assim como me vejo na ACP..." (Corrêa Navarro , 1989 , p.19)

Contemplando esta belíssima tela de Monet, que representa um marco importante na História da Arte, pois ela é a obra símbolo do Impressionismo. Mas ela não é significativa apenas para a História da Arte. Ela cumpre uma das finalidades da Arte, que é revelar a tendência do movimento cultural, filosófico e o pensamento da época emergente, ajudando o Ser Humano a sair de onde estava - do pensamento romântico, do pensamento naturalista, do pensamento cartesiano, das atitudes positivistas e mecanicistas - para ir de encontro com a subjetividade. Segundo Hauser (1969, ps.17-18), o movimento artístico da geração de 1830 (tanto da literatura quanto das artes plásticas), possibilitou emergir a dúvida sobre a Razão e sobre o sentido da realidade exterior. O sentido da obra de arte oscilava entre uma ilusão ( algo imanente, separado da realidade) e uma função prática (determinada pela vida social). A essência da obra de arte passou a incluir a experiência estética direta e autônoma, caracterizando-se por ser uma ilusão perfeita e a necessidade da existência da "quarta parede", ou do público, do expectador, que ao participar autenticamente da contemplação da obra, além de desfrutá-la tem autonomia suficiente para interpretar o sentido da obra, sem que o sentido dado pelo contemplador seja necessariamente idêntico à intencionalidade do artista/autor da obra (Hauser, 1969. Ps.34-35).

Contemplemos esta obra prima de Monet, Impressão. Nascer do Sol. Ofereçamos a nós a oportunidade de usufruir dela. Que mensagens ela nos traz? Que informações podemos extrair deste cenário? O que pode representar um amanhecer? Um caminhar mais seguro, tendo a claridade da luz do sol para mostrar detalhes do terreno... Conhecer detalhes pode ajudar a facilitar e a garantir um movimento sem quedas e com menos erros de direção... Um barquinho em águas tranquilas pode confirmar esta interpretação, da caminhada segura... Lembremos que o barquinho é realisticamente, ou tem a função prática, de um meio de transporte, ou seja, é uma das modalidades de nos transportarmos, deslocarmo-nos de um ponto a outro. Neste barquinho, podemos ser ora timoneiros, e conduzir, ora passageiros, ou sermos conduzidos.

Será que esta simbolização poderia

representar e descrever sinteticamente

a natureza e o funcionamento

da relação/relacionamento humano?

A relação terapêutica teria

um funcionamento muito diferente disto ?

Após me encontrar com a Abordagem, comecei a dar outro sentido para a dor humana, talvez o sofrimento, tal como o estrume, pudesse se constituir como adubo para a terra, fortalecendo o solo durante a semeadura, ajudando na germinação das sementes e no crescimento das plantas... Plantas que florescem e frutificam...

Encontrando a Abordagem Centrada passei a aceitar que alma é a essência, ou sopro de vida de um ser. Um ser em qualquer forma de Vida, a humana, a animal, a vegetal, a mineral...

E ao escutar as dores e anseios de minha alma busquei com firmeza a plasticidade dos recursos artísticos para a expressão de sentimentos, de pensamentos, de percepções. Busquei a Arte enquanto elemento facilitador da expressividade da alma e encontrei na Arte uma excelente condição de aprendizagem para reconstruir atitudes. Passei a concordar com Gide, escritor frances que viveu fisicamente no período de 1869 a 1951 :

"A Arte nasce quando viver não é suficiente

para exprimir a vida."

 

Mas como me iniciei nas atividades clínicas com crianças, e como tem sido meu percurso/trajetória ?

Fiz meu curso de Psicologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, numa época em que se acreditava piamente que a Ciência resolveria qualquer problema humano, inclusive as dores da alma, reorganizando os comportamento humano, extraindo conhecimento a partir do estudo da vida animal e da vida humana. Demorei um pouco a perceber que esta crença cega, que focalizava restrição de possibilidades não condizia com uma verdadeira atitude científica e nem bastaria, ou seria suficiente, para compreender e explicar a Natureza Humana.

Embora eu tivesse escolhido a Psicologia como profissão, por estar interessada na Psicanálise e conhecer mais profundamente os conhecimentos estabelecidos por Freud, fez sentido para mim erguer a bandeira do Behaviorismo, eu intuía que estes dois campos de estudo e atuação tinham identidade com a Metodologia mecanicista e cartesiana. Aproveitei viver o espírito da época, o movimento estudantil em busca de uma sociedade mais verdadeira e mais justa, o ambiente daquela Faculdade, pois vivíamos como se estivéssemos numa Faculdade de Ciências, sem considerar os elementos Filosofia e Letras. Assimilei da Epistemologia determinista e mecanicista muitos de seus ensinamentos e aprendizagens, todos que estavam ao meu alcance e ao alcance de meus mestres. Queria se cientista positivista e cartesiana.

Antes de finalizar o curso de Psicologia, reencontrei-me com o desejo de ser psicóloga clínica, tendo como mestra a Dra. Thereza Mettel, que, coincidentemente fizera disciplinas com Rogers , durante o Mestrado dela, que fizera em Winsconsin.

Após algum tempo de apego a procedimentos diretivos durante minha atuação terapêutica, creio que até 1983-84, comecei a me sentir desconfortável e pouco competente na minha rigidez determinística. Eu atendi uma menina, que sofria de e com a enurese noturna, e o único procedimento que faltava tentar era ministrar choque elétrico ao descontrolar o xixi. Repudiava tal estratégia, vinha muito forte em minha consciência os experimentos em que investigávamos as aprendizagens em pombos e ratos ao serem ministrados choques na grade da caixa experimental. Eu pensava com meus botões, gente não é rato nem pombo! Cama não é grade de caixa experimental! Deparei-me com a limitação da Metodologia Comportamental daquela época, examinei o meu interior e percebi que eu queria algo que me ajudasse a cuidar dos "pacientes" com mais amor e humanidade.

Eu precisava mudar! Eu precisava escolher algo diferente da escolha anterior, sofri uma crise de lealdade, pois teria que arriar a bandeira do Behaviorismo. Durante algum tempo, possivelmente até 1990, fiquei me sentindo desconfortável com minhas mudanças e com meu movimento, constante e incessante, de buscar algo de novo, ou algo mais, algo fora do contexto da Epistemologia mecanicista. Eu não entendia plenamente o meu movimento de mudar, e tinha dificuldades em aceitá-lo. Sentia como se fosse errado ter dúvidas e não ter controle e previsão dos fatos, ranço de pesquisadora positivista e mecanicista ! Em 1990 (3) eu consegui compreender melhor as minhas mudanças, aceitar que elas faziam parte do meu crescimento pessoal, elas revelavam a minha congruência e a manifestação de minha tendência realizadora. Atualmente fico muito confortável em seguir a minha curiosidade, sei que ela me guiará em direção a experiências que sempre me trazem alguma aprendizagem significativa e enriquecem a minha maneira de estar no mundo e a minha maneira de ser. Sem me importar com fidelidade de partidos, se tenho carteirinha do clube da Gestalt, ou do clube da Abordagem , ou do Behaviorismo, da Terapia Sistêmica, do Ateliê do fulano de tal, e assim por diante... Acho que estou aprendendo a ser fiel a mim mesma!

E assim eu tenho caminhado e construído minha trajetória e meus caminhos, ora com a Ciência, ora com a Arte, mas sempre comigo !

Às vezes tenho a impressão de estar recortando retalhos e sinto um pouco de receio de que um estado de desconexão se estabeleça e dure para sempre. Mas são momentos fugazes, basta permitir que uma atividade artística me envolva e toque meus sentimentos, que me vejo qual uma artesã, costurando retalhos para construir uma colcha, ou um tapete, ou, quem sabe, algo para ser simplesmente apreciado, contemplado...

Ainda hoje fico intrigada com este meu jeito de me organizar integrando significados.... Às vezes eu pergunto para mim mesma - mais numa tentativa de explicar o meu processo e tentar dar ordem aos fatos, do que me justificar - como eu me oriento, quais os critérios usados por mim para dirigir, ou dar direções, para minhas escolhas ? Aonde arranjo tanta disposição, para procurar tão metodicamente relações, estabelecer e criar ordens harmonizantes (ou passíveis de harmonia), seja no meu processo de recortar retalhos, ou de ordenar informações para produzir um trabalho a ser apresentado em algum evento, ou de apreender os significados dos retalhos da minha própria vida. Como eu me oriento ?

No decurso de minha vida

oscilei...

De um lado para o outro

eu me debati...

Entre dores e alegrias

eu descobri,

como estar lado a lado

com o que vivi...

(Corrêa, 1997, 7º ENACP)

Sem dúvida alguma através de meu lado artístico e de meu lado lógico, ou se preferirem, de meu lado direito - D , e de meu lado esquerdo - E , do cérebro!

Acho que é por isto que eu batizei o filho/trabalho com este nome : A Psicoterapia Infantil através da Abordagem Centrada na Pessoa e da Arteterapia !

Consultando o dicionário, em busca da exatidão de significados (exatidão é uma atitude incorporada durante minhas andanças pelas Ciências cartesianas) podemos nos surpreender com as revelações dele. Através significa "de lado a lado", enquanto advérbio. Através de é "de um lado para outro lado de ; por entre ; no decurso de" (Ferreira, 1994, p. 72). Estar lado a lado com algo ou alguém, isto me agrada! Movimentar-me de um lado para um outro lado, isto agrada muito minha alma de pisciana! Atravessar de um lado para o outro lado, como se caminhasse na Ponte Japonesa, de Monet, isto faz minha alma feliz! [Monet , A Ponte Japonesa , 1899 ]

 

Projetando contextos

Em 1993, assistindo a uma palestra de Faiga Ostrower, fiquei fortemente impressionada com seu posicionamento a respeito de criatividade. Ela afirmava que "o ser humano constitui um ser criador, por natureza". Eu me identifiquei com a fala dela de que "o fazer artístico é um prolongamento de atos que fazem parte do processo de viver".

Deixei que as palavras - o fazer artístico - ficassem bailando em meus pensamentos e em meus sentimentos. Procurei resgatar minhas sensações quando estou diante de uma tela ou uma folha em branco . O que eu faço para preencher o vazio ? Às vezes uma imagem surge em minha consciência e tento reproduzi-la. Quando a imagem não surge, ou demora para surgir, olho para as cores de minhas tintas, ou do giz pastel, escolho uma cor, aquela que se destaca naquele momento, e deixo que minha mão e a cor "pensem" e planejem os movimentos coloridos, as cores e os traçados vão sendo escolhidos passo a passo, ficando neste processo revelada, enquanto autora dos movimentos, a minha "obra de arte", ou a minha capacidade em manusear materiais, e através deste manuseio, colocar em prática as minhas idéias .

Neste agir - ou ao se colocar em prática uma idéia - pode-se incluir um componente artístico, transformando-se em um fazer comprometido com o belo e com a estética. O belo (Ferreira, 1994 , p.90) "é agradável aos sentidos", possui "formas e proporções harmoniosas", a contemplação e a vivência do belo elevam as nossas sensações e sentimentos ao sublime, ao magnífico, ao êxtase quase perfeito... Deste modo é inevitável que, neste agir, revelamos e desvelamos os nossos sentimentos, caracterizando este agir como algo espiritual, tornando visível o que estava invisível, materializando e dando concretude às idéias, dando objetividade à subjetividade daquele ser que se manifesta.

Mas este fazer artístico seria diferente em outras contextualizações ? Para Faiga Ostrower e para mim "o fazer artístico é um prolongamento de atos que fazem parte do processo de viver.". Com isto aprendi que o agir terapêutico é muito semelhante ao agir artístico, estar com um cliente é se aproximar dele como eu me aproximo de uma tela em branco, deixando que minhas intuições escolham "as tintas, os pincéis e os traços e as pinceladas", prestando atenção em meu interior, (manuseando) identificando o material subjetivo que emergir em cada momento, manuseando o material mais sensível e mais representativo da minha intencionalidade, físico escolhendo e re-escolhendo a todo momento os objetos mais adequados, sejam eles lúdicos, ou artísticos, para dar concretude às minhas idéias e desejos de ajudar a harmonizar a pessoa do cliente, facilitando que ele viva sensações e sentimentos sublimes em relação a ele mesmo, desvelando para si mesmo a Beleza do Viver...

A capacidade de contextualizar é inerente à condição humana, esta capacidade permite à pessoa interligar as informações recebidas, dando significado para aquilo que ela percebe, além de favorecer a integração deste "novo" significado com outros significados anteriormente assimilados. O ato de buscar significados, ou de compreender o que se percebe, permite dar sentido ao que se vive e intuir o que se virá. Tal conexão entre o espacial, o sensorial e o temporal facilita ao homem projetar contextos e/ou modificar contextos, tornando-o participante ativo e criativo da Natureza. De momento a momento a percepção de um novo elemento pode provocar alterações nas interligações do contexto e, sem dúvida alguma, alterações nas configurações de significados. Considero isto a base da Ludoterapia, mas esmiuçaremos esta idéia mais adiante.

Contextualizar, traz a idéia de compor, de efetuar ligação entre partes de um todo (Ferreira, 1994, pag.173), podendo , mas não necessariamente, ter um compromisso com técnicas artísticas, é suficiente o compromisso com a harmonia. Ao se criar uma contextualização, este fato sempre revela a alma do autor que contextualiza , desvelando a sua percepção de Mundo, de si mesmo e de si mesmo no mundo. Existe sempre um compromisso com a harmonia, deixando aberta a possibilidade desta harmonia incluir e estar comprometida e com o belo e com a estética, porque pressupõe uma articulação de partes em um todo, através de um trabalho laborioso, artesanal e único.

 

 

Integrando contextos : Abordagem Centrada na Pessoa e

uma terapeuta mais espiritualizada

Estou há muitos anos gestando uma psicologia mais espiritualizada. Percorri muitos caminhos dentro da Psicologia e, quando me separei da Análise Experimental do Comportamento, uma questão tomou conta de mim :

Por que a Psicologia não se ocupa

daquilo que seu próprio nome diz :

psyche - alma , e logos - estudo ?

O que seria estudar sistematicamente a alma,

não no sentido teológico,

mas naquele sentido que os dicionários dão

"essência ; sopro de vida"?

Tenho este "projeto de contexto" em gestação, e cada vez que me deparo com a oportunidade de escrever, sei que a oportunidade me servirá de nutrição para meus processos de contextualizar e recontextualizar os fatos e os fenômenos.

Quando presto atenção nas palavras "sopro de vida", percebo meu lado lírico tocado. Meu lado sonhador, sentimental e romântico deseja falar, em forma de poesia, sobre as emoções e os sentimentos mais íntimos das pessoas. Não é uma maneira científica de fazer Psicologia, mas sem dúvida alguma é uma maneira artística. Estou em busca de uma Psicologia significativa para mim e para a Humanidade.

Cabe diferenciar o campo de atuação da Medicina e da Psiquiatria, do campo de atuação da Psicologia (Corrêa, 1992, p.19). Se a Medicina é a ciência de curar e atenuar doenças , a Psicologia é a ciência dos fenômenos psíquicos.

Não podemos nos esquecer que a palavra psicologia é derivada do grego psyché , ou alma , e logos , ou estudo. O campo de atuação da Psicologia é configurado por aquilo que seu próprio nome diz, o estudo da alma, ou o estudo e a investigação da essência humana, estes seriam os fenômenos psicológicos.

Sempre que me deparo com a palavra essência, imediatamente se faz presente em minha consciência, um de seus significados mais pertinentes, sopro de vida.

Estudar, investigar, compreender, conhecer e explicar os fenômenos psíquicos, enquanto manifestação da alma humana, ou investigar aquilo que é essencial aos atributos humanos, aquilo que traz sopro de vida...

Mas o que seria um atributo essencialmente humano ?

O que faz parte da alma humana ?

Ao examinar estas questões percebo em mim um desejo de rever a historia de Psiquê. Na mitologia grega (Guimarães, 1996, p.267-268), Psiquê era a personificação da alma, geralmente representada por uma figura feminina, mais menina do que mulher, com asas de borboleta. As crenças gregas populares concebiam a alma como uma borboleta, e uma pessoa ao morrer , ou quando sua alma se desligava e escapava do corpo, a alma se apresentava na forma de uma borboleta. [ Encontramos aí as raízes do significado simbólico da borboleta como indício de transformação.]

Psiquê simboliza o princípio de alma, a qualidade da vida que se transforma. Na mitologia grega Psiquê foi uma linda jovem, filha de um rei, cujos súditos admiravam tanto a sua beleza que a comparavam com a beleza de Afrodite, a deusa do Amor. Afrodite, por ter duas tradições de nascimento, ora manifestava o amor puro, ora o amor vulgar, ficara enciumada com as comparações dos súditos de Psiquê. Afrodite manifestou seu ciúmes, criando situações em que os pretendentes a casamento de Psiquê se afastassem , desse modo ela foi ficando sozinha, sem que nenhum homem a quisesse como esposa. A solidão de Psiquê não aplacou o despeito de Afrodite, que ordenou que seu filho Eros, deus da força fundamental do mundo, o Amor (p.140), matasse Psiquê. Porém, Eros ao conhecer Psiquê apaixonou-se perdidamente por ela. [ A possibilidade desta união traria para a Humanidade a concretização da promessa de que , se o Amor, enquanto força e energia fundamental, se entregasse plenamente à Alma, e a Alma se entregasse plenamente ao Amor, teríamos como resultado, essencialmente, a recuperação do sopro de vida, a revitalização dos processos de Vida, nas mãos dos humanos e não nas mãos do arbítrio dos deuses ].

Eros, apaixonado por Psiquê, ordenou que Zéfiro, o vento oeste que personificava o céu estrelado, trouxesse sua amada para seu palácio [ com esta decisão anunciava para a Humanidade que a entrega apaixonada, ou perder-se na entrega de amor, nos associa ao conhecimento romântico desconectado da realidade externa : o amor pelo amor, a arte, pela arte, a ciência pela ciência. Pois Eros era deus e imortal, e Psiquê era humana e mortal... ].

Por ser uma divindade, Eros se apresentava invisível aos olhos físicos da mortal Psiquê, mas esta, com sua sensibilidade e romantismo, aceitou e se enamorou do pretendente, mesmo sem vê-lo e sem conhecer a sua identidade, confiando e se entregando aos seus cuidados [ seguiu cegamente apenas o que as emoções pediam a ela].

Decorrido um certo tempo, Psiquê sentiu saudades dos familiares [ ou da concretude do mundo físico ] , sentindo-se novamente solitária, sem os seus iguais, os seres físicos como ela. Eros, não conseguindo dissuadir Psiquê, novamente encarregou Zéfiro para levá-la à terra de seus familiares. Ao encontrar com suas invejosas irmãs, esta convenceram Psiquê a conhecer o misterioso esposo [ despertando em Psiquê a dúvida e a necessidade de conceber a realidade e a verdade através da verificação experimental , sensorial e aparentemente objetiva, orientada pela curiosidade, mesmo misturada aos sentimentos de inveja e desrespeito a um trato ]. Psiquê , com esta decisão, iria contrariar o pedido de Eros, de que nunca procurasse ver as suas feições. Ao buscar a comprovação objetiva de quem era seu esposo, ao realizar tal verificação experimental, Psiquê ficou tão encantada com a beleza de seu esposo, e, por infelicidade da sorte [ ou sentimento de culpa ], deixou cair no rosto de Eros adormecido, um pouco do óleo quente que alimentava a luz de sua lâmpada. Eros se despertou cheio de dores, dores físicas provocada pela queimadura, dores morais provocadas pela desobediência e traição de Psiquê à promessa, dores afetivas com a deslealdade, ingratidão e crueldade de Psiquê [ efeitos colaterais da busca do conhecimento objetivo, para honrar a busca de objetividade e a satisfação da curiosidade de um outro, e não pessoa que investiga, o investigador comete atos que podem ferir a integridade da pessoa investigada e de si mesmo. Seria isto buscar um conhecimento verdadeiramente objetivo ou se manter alienado das próprias necessidades? ]. Enraivecido e magoado, Eros abandonou a esposa. Psiquê saiu errando pelo mundo, em busca do amor perdido, implorando ajuda a todos os deuses, mas nenhum deles quis ajudá-la, pois ela incorrera ao grave erro de uma mortal se casar com uma divindade, sem pedir o consentimento dos deuses.

Apenas Afrodite, a deusa do amor ambíguo, a acolheu, não para ajudá-la, mas para se vingar de Psiquê, que conquistara o coração de seu filho Eros. Prometendo facilitar a conciliação entre Psiquê e Eros, Afrodite deu-lhe tarefas tão difíceis, que Psiquê ia cumprindo com a ajuda de divindades compadecidas ao amor impossível dela [ dificuldade da Psicologia em construir a própria identidade , facilidade da Psicologia em se afirmar através de outras ciências ].

Mas Psiquê, novamente não resistiu à busca de objetividade para satisfazer sua curiosidade, e, "No caminho de volta dos infernos, por irresistível curiosidade, abriu o frasco conquistado e caiu num sono profundo [ como se fosse castigada todas as vezes que se rebelasse às regras ... ]

Eros, desesperado de amor e saudades, se pôs a procurá-la [ mostrando com isto que o arrependimento, além do amor, também é uma força fundamental à humanidade ]. Foi encontrá-la entregue ao sono mágico, despertando-a com um adejo de suas próprias asas [ um pouco de lirismo, um pouco de movimento de liberdade, para renovação de ar e para combater a magia dos castigos ].

Eros levou Psiquê até o Olimpo e suplicou a Zeus para desposá-la [ arrependeu-se da rebeldia e podendo agora respeitar a hierarquia ]. Zeus deu-lhes a permissão [ mostrando que as regras e leis podem ter exceção ] e ordenou que Afrodite se reconciliasse com ela [ exigindo uma organização de paz e solidariedade ], concedeu à bela moça a imortalidade [ ou a promessa de que a humanidade pode evoluir eternamente através do amor dedicado e solidário, desde que os seres humanos se entreguem ao Amor Fundamental ]."

O meu envolvimento com a Abordagem Centrada na Pessoa ajudou a recuperar e a fortalecer o meu humanitarismo e o meu amor pela humanidade. Este mesmo sentimento de amor pela humanidade, me ajudou a escolher a Psicologia como profissão. Em minha adolescência eu queria me ocupar do sofrimento humano, por compaixão eu queria aliviar os sofrimentos das pessoas, e por curiosidade intelectual eu queria conhecer os motivos de tais sofrimentos... Na Abordagem Centrada encontrei terreno fértil para semear meu anseio pelo espiritual. Para Rogers, "as pessoas do futuro são indagadoras. Querem encontrar um sentido e um objetivo da vida que transcendam o individual" ( 1983 , p. ). O espiritual se refere a tudo aquilo que é "incorpóreo ; a parte imaterial do ser humano" (Ferreira, 1994, p.270), aquilo que objetivamente não é passível de se tornar matéria. São as impressões e os acontecimentos subjetivos, algo de natureza não concreta.

Eu tive a oportunidade de, em 1985, atender uma criança que entrava na sala de ludo, mas que se recusava a brincar e a manusear os brinquedos. Ela sempre escolhia canetinhas para desenhar, escolhendo como forma de se comunicar a linguagem pictórica e não a esperada maneira de estar na sala de ludo, comunicar-se através dos brinquedos, das brincadeiras e da linguagem verbal. Eu percebi que me faltavam recursos técnicos para facilitar a expressão daquela criança. Fez sentido para mim buscar conhecimento de técnicas artísticas. Naquelas buscas eu encontrei maneiras para melhor expressar os meus anseios espirituais e minha curiosidade em conhecer profundamente as questões da alma humana. Comecei a fazer formação em Arteterapia, com Joya Eliezer. Acabei encontrando então uma maneira de registrar objetivamente o processo terapêutico do cliente. Registrar, medir e quantificar era algo familiar à minha época de cientista, só que agora eu incluía as minhas mudanças, os elementos estéticos e líricos, eu incluía a arte. Através das imagens plásticas criadas pela criança e por mim, eu identificava informações e as transcodificava para a linguagem verbal, pois as imagens plásticas eram autênticas e fidedignas expressões das percepções de seus autores, referentes a qualquer assunto. Descobri a utilidade das técnicas artísticas em um contexto terapêutico, elas ajudam as pessoas que querem se conhecer a expressarem não apenas aquilo que está presente em sua consciência, mas também aquilo que está emergindo de seu inconsciente e que está à borda de sua pré-consciencia. Ao realizar um trabalho artístico, seu autor revela um imagem de seu mundo interno, como resultado de seu trabalho de criação, constrói uma imagem plástica, trazendo para o mundo externo e objetivo a imagem que estava internalizada e na dimensão do imaterial, em seu mundo subjetivo. Ao contemplar suas próprias obra, o autor entra em contato com características essenciais que compõe a sua identidade. Ao usar recursos artístico, reconhece seus recursos internos, ou seu poder criativo, revigorando o sopro de vida contido em si mesmo.

M REDONDA =>

Minha curiosidade para conhecer a natureza humana e o meu compromisso em ser terapeuta, me despertaram para a necessidade de buscar continuamente novos procedimentos para aliviar o sofrimento da alma humana. Cada busca me confirma a necessidade deste meu movimento incessante e contínuo de buscar, ou de atualizar as possibilidades de expressão do meu potencial humano. As pessoas que me procuram para atendimento psicológico estão sofrendo elas não são necessariamente infelizes, mas estão infelizes o suficiente para procurar ajuda profissional.

Meu compromisso com a manifestação de minhas tendências atualizadora e formativa, despertaram em mim a necessidade de conhecer e estudar, no sentido teológico, a alma, a cura espiritual para o alívio de sofrimentos físicos e/ou emocionais. Percebo e reconheço, tanto na minha atuação profissional quanto na vida pessoal as cores do humanismo, da arte e do espiritualismo.

"O homem moderno, na sociedade materialista de hoje, acha que embarcou numa viagem através do deserto. Sua sede pode ser aplacada somente pela atenção repetida à provisão de conceitos e sentimentos que dão sentido a sua existência e colocam a totalidade de sua própria humanidade num mundo, tanto humano quanto espiritual, de valores estéticos e éticos." , (Lievegoed, 1976 , p.13)

Ao ler esta citação em 1992, compreendi a importância de ser terapeuta humanista para resgatar no homem, não apenas sua identidade de indivíduo, mas também a sua humanidade. Compreendi também a importância da existência do amor espiritual, e a responsabilidade e o compromisso de incluí-lo nos relacionamentos. Acho que meu destino, enquanto terapeuta e ser humano, é ajudar a despertar em cada pessoa, não apenas a sua identidade, mas também a sua orientação básica de vida. É ajudar as pessoas a fazerem escolhas por aquilo que pode aplacar a sede e a fome de existir amorosamente, garantindo uma existência feliz !

Para mim ser terapeuta humanista, através dos recursos da Abordagem Centrada na Pessoa e da Arteterapia, é viver o amor espiritual é como estar na tela de Monet (1879), O campo das Papoulas.

 

A PSICOTERAPIA INFANTIL OU A LUDOTERAPIA CENTRADA

Sabemos que psicoterapia, de um modo genérico, significa "aplicação metódica de técnicas psicológicas determinadas para restabelecer o equilíbrio emocional perturbado de um indivíduo" (Ferreira, 1994 : p.537). Também sabemos que "Rogers não propõe técnicas especiais para que se estabeleça a relação de ajuda .... o contato do profissional de ajuda deve consistir num conjunto de concepções e atitudes relativas ao ser humano e não na aplicação de conhecimentos ou habilidades" (Morato, p.36 In Rosenberg, 1987).

Atitudes X técnicas

Uma atitude implica em um propósito e na maneira em que este propósito é manifestado. E quais seriam os propósitos, as intenções relativas ao ser humano ?

Segundo Rogers (1980), a atitude básica, ou o princípio norteador, para entrarmos em contato com o humano e com os seres humanos, é a confiança em todos os seres humanos e em todos os seres vivos. É a crença, e a segurança que esta crença traz, que os indivíduos possuem dentro de si vastos recursos para a autocompreensão e para modificação de seus autoconceitos, de suas atitudes e de seu comportamento autônomo. Recursos estes naturalmente orientados para a construtividade, desde que o indivíduo não sofra, em sua história de vida, intercorrências que poderão alterar a direção de sua potencialidade para a destrutividade.

Potencialmente, todo e qualquer indivíduo, é constituído por recursos que compõem a TENDÊNCIA REALIZADORA. Esta é "uma fonte central de energia no organismo humano" (Rogers, 1980, p.44). A realização é um atributo da vida orgânica, portanto é uma característica que regula a vida humana, pois é um atributo pertinente à condição do humano, a realização é um dos aspectos definidores da humanidade. Em cada organismo, não importa em que nível, há um fluxo subjacente de movimento em direção à realização construtiva das possibilidades que lhe são inerentes. As possibilidades podem ser diferentes se compararmos um indivíduo com o outro, mas os comportamentos de qualquer organismo estarão, por predisposição inata e inerente à condição de organismo vivo, voltados para sua manutenção, seu crescimento e sua reprodução.

Rogers expande a concepção da tendência à realização em uma outra tendência direcional, a TENDÊNCIA FORMATIVA. Considerando-a uma característica do Universo como um todo, afirmando que "toda forma que vemos ou conhecemos surgiu de outra mais simples, menos complexa" (1980, p. 44-45). Nesta afirmação fica implícita a idéia e um processo contínuo de transformação. Para Rogers, esta tendência direcional, pode ser observada em qualquer nível, visível tanto no nível inorgânico como no orgânico. É uma característica do Universo como um todo, garantindo mudanças graduais e contínuas, orientadas para a evolução, pois a tendência formativa é sempre atuante em direção a uma ordem crescente e a uma complexidade inter-relacionada (Rogers, 1980, ps.44-45).

Mas como nos ocuparmos de uma criança, cujo equilíbrio está perturbado, cujas emoções estão em desordem, a ponto de provocar nela, e nas pessoas que convivem com ela, sofrimentos, desconfortos, desequilíbrios, insatisfações... Como transformar as nossas preocupações profissionais e humanitárias, em atitudes, manifestadas no contato com uma criança, poderiam caracterizar em "uma aplicação metódica de técnicas psicológicas para restabelecer o equilíbrio emocional perturbado de um indivíduo" ? Ou então, como poderíamos ajudar a criança a se aliviar de seus próprios desconfortos afetivos e das pessoas que convivem com ela?... Como criar um contato e uma relação de ajuda sem técnicas, contando apenas com nossas concepções de vida e da Vida, contando com nossas atitudes construídas a partir de nosso atributo de humanidade e dirigir as nossas atitudes para outros seres humanos que sofrem com a intenção de aliviá-los... Como nós, sofredores que também somos, poderemos aliviar o sofrimento de outros seres humanos...

Gosto de me referir a este contexto de psicoterapia infantil como Ludoterapia Centrada, centrada na criança que se relaciona com um terapeuta. Gosto da definição de Axline, 1946, p.22), "Ludoterapia é um método de ajudar as crianças a se ajudarem".

Um contato de ajuda é uma relação em que tanto a criança quanto o terapeuta estão dispostos a uma troca de experiências, em que o terapeuta tem a intenção de promover na criança o crescimento de seu desejo de autonomia, de viabilizar a possibilidade de escolhas que lhe proporcionem crescimento emocional, pessoal, social, tornando-se capaz de criar direções construtivas para seu dia a dia. Para tal finalidade o terapeuta precisará, não apenas auxiliar a criança a receber ajuda e apoio, mas a desenvolver sustentáculos, que lhe servirão de base, apoio ou chão, para a caminhada em sua existência. A criança precisa construir e organizar uma base de sustentação para se organizar na Vida... A reconstrução de sua base de sustentação é um processo de mudanças compartilhado com o ludoterapeuta. Portanto, o processo de reorganização da criança é um processo de co-construção, o terapeuta oferece à criança a sua experiência, ou desvela, o seu travejamento, ou a sua experiência (tanto pessoal quanto profissional), ou como organizou e construiu a composição de um aspecto de sua vida , a capacidade de ajudar, a capacidade de estar com uma pessoa em uma relação de ajuda. A relação estabelecida entre a criança e o ludoterapeuta, no decorrer do tempo, se transformará em um relacionamento, que resultará para a criança, em uma oportunidade para reestruturar sua vida. Lembremos que estrutura traz a idéia de "composição ; disposição e ordem das partes num todo (Ferreira, 1994, p.279).

E quais seriam os elementos,

Que serviriam de matéria prima

Para a Ludoterapia?

 

CONTEXTUALIZANDO A LUDOTERAPIA CENTRADA

A LUDOTERAPIA

A Ludoterapia aproveita, como condição para se construir a relação de ajuda, a atividade lúdica com brinquedos, considerando também que o brincar é o meio natural de expressão de uma criança (Axline , p.22) . Durante as brincadeiras, ao manusear os brinquedos a criança dá concretude ao seu poder criativo, plasmando nas brincadeiras os seus sentimentos, seus pensamentos e suas percepções do mundo, de si mesmo e de si no mundo.. O "brincar é movimento e manifestação de uma força que faz com que a dinâmica criadora contida no corpo se projete também para fora"(Heydebrand , p.45). Na Ludoterapia a criança tem oportunidade para "se libertar de seus sentimentos e problemas através do brinquedo"(Axline, p.28) é um agir no qual a criança projeta seus pensamentos e sentimentos, revelando, ou tornando visível o que estava oculto, para ela mesma e para o T. À criança é oferecida a oportunidade de se extravasar, se libertando daquilo que a faz sofrer, ou seja, se libertando da incompreensão daquilo que vivenciava. Ao se exprimir ela exterioriza o que estava em suas fantasias, revelando para o olhar atento do terapeuta o que estava oculto até para a compreensão da própria criança. Exteriorizando o que estava contido dentro de si, é possível tornar conhecido o desconhecido. Ao tomar contato com as revelações, observando o próprio agir juntamente com o agir do terapeuta, refletindo sobre o significado do próprio agir instigada pelas reflexões do terapeuta. Ao observar a si mesma, a criança encontrará informações que, intencionalmente tomadas pela sua consciência, estas informações poderão trazer novos significados, que poderão oferecer novas direções, novos pontos norteadores, ou aa descoberta de recursos internos anteriormente inimagináveis, propiciando à criança um condição mais construtiva do sentido da própria vida e do viver, e assim transformando a reorganização do que percebe e compreende de si mesma, e, consequentemente, da maneira que se relaciona consigo mesma e com o mundo.

Ao terapeuta é oferecida a oportunidade de compartilhar da dinâmica criadora da criança, recebendo dela a força criadora, que plasmada à própria força criadora do terapeuta comporão um cenário tão lindo quanto O Arco de Rosas, de Monet (1913).

A CRIANÇA

Muito se tem falado sobre crianças, mas aprecio muito a maneira que Caroline von Heydebrand (9) fala da criança. Ela acredita, assim como eu, de que a existência de cada criança é uma evidência da natureza das forças formadoras, permeada de uma Energia Superior, cuja sabedoria a compreensão humana não consegue atingir. É como se "o mundo todo atua em conjunto, a fim de que surja um corpo humano para um ser espiritual" (1959, p.14). Mas às vezes parece que o mundo todo atua em conjunto para que as crianças se tornem problema. São as crianças que se tornam retraídas, acabrunhadas, tristes, ou nervosas, agitadas, irritadas e irritantes. São crianças que estão profundamente infelizes... Mergulhadas em adversidades, foram pouco favorecidas, geralmente não tiveram a sorte de receberem amor e segurança, tão necessários ao seu crescimento pessoal (Axline, 1946, p.73). Concordo com Violet Oaklander, "por certo muitas vezes a criança é o bode expiatório de uma família insana... (1978, p.334)

A maneira como os adultos, que ocupam a função de educar a criança, compõem as suas idéias e seus valores sobre o que é ser uma criança , refletira’ na maneira como eles organizam o relacionamento com ela a criança.

Uma criança poderá estar entristecida, sem ter a liberdade de se movimentar, tal como os pássaros em gaiolas de ouro. Podem estar recebendo muito conforto material, mas vivem em cômodos escuros : Jean Monet na casa do artista, Monet , 1875 , ou O menino e o vitral , ansiando pelo momento de que a luz, e o calor do sol que se vislumbra fora, poderá chegar em forma de ternura e calor humano. A luz que se vislumbra pela janela é sempre uma promessa de esperança. Só que às vezes esta esperança está tão esmaecida, e a criança tão distante de sua fonte central de energia que ela se posiciona de costas para a luz, com os braços para baixo, como se não tivesse nada para agarrar, para se sustentar... A cabeça levemente caída, revelando um estado de desânimo...

Uma criança poderá estar sofrendo por ter que satisfazer a vaidade, as expectativas e os desejos de seus pais, tal como Jean Monet em seu cavalo mecânico, Monet, 1872. Quantas vezes nos deparamos com famílias cujas crianças precisam exibir e comprovar as boas qualidades de seus pais ! Afirmando para os pais o quanto eles são bons pais...

Ou então uma criança está tentando ser um verdadeiro monstro, tentando se encaixar no papel de monstro para realizar a função de promover a infelicidade dos pais, atendendo a necessidade da família de viver o sofrimento , Carranca com Vida , Humberto,1985 .

Outras vezes a criança se apresenta tão desumanizada, por submeter-se às expectativas dos pais ou às condições hostis e adversas da vida, que fica como no desenho de Paul Klee, 1939, se locomovendo de quatro, rastejante e com formas desproporcionais ou desequilibradas.

Basta um adulto envolver a criança com consideração, compreensão e um desejo sincero de ajudá-la a se ajudar, que seu coração se abrirá e poderemos "...compartilhar de sua assombrosa sabedoria, geralmente mantida oculta..." (Oaklander, 1978, pag.15).

OS PAIS

Fiquei fortemente impressionada em 1988, ao encontrar, quando lia o livro de Maldonado (9) Comunicação entre Pais e Filhos, algumas palavras que sintetizavam o que eu experienciava com os pais de meus clientes : a imagem de BONS PAIS : mitos, expectativas e dificuldades. De repente fez sentido para mim o aprisionamento, que a concepção de bons pais, efetua na criatividade e espontaneidade dos pais. A concepção de bons pais, ao invés de guiar e elucidar o que fazer, como fazer e quando fazer, muito mais facilmente aprisiona a iniciativa dos pais, condicionando-os a seguirem indicações e normas exteriores à sabedoria peculiar a cada pessoa, ou do casal parental, ou da mãe ou do pai. Ao invés deles seguirem a própria intuição e as lições extraídas de suas próprias experiências, deixam-se guiar por valores, que muitas vezes discordam, seja enquanto individualidades ou enquanto casal. São os mitos criados pelo excesso de divulgação de informações pertinentes à Psicologia e à Educação, criando a expectativa nos pais de que criança não pode ser traumatizada se propondo serem, não simplesmente pais, mas de serem super-pai e super mãe. Vejam esta bela tela de Botticcini, A Madona , a mãe foi vista por séculos a fio como uma santa, não podendo pecar, sendo que atualmente este não pecar parece estar significando não contrariar os filhos, deixar que eles tomem decisões não compartilhadas com os pais e nem solidarizadas aos valores dos pais. Esta imagem coloca a expectativa da abnegação, a necessidade de viver a maternagem com perfeição, beleza, suavidade, santidade, renúncias sem limites. Tem sido um mito que tem promovido mais sofrimento do que felicidade. Já o pai tem sido visto mais como nesta imagem , o durão, o poderoso, aquele que intimida, que obriga as pessoas a cederem para ele, aquele que julga e aplica os castigos, o cruel. Mas onde está mesmo a crueldade, neste pai ou dirigida para este pai, que precisava conter seu lado amoroso... Outras vezes o pai tem sido visto como despontecializado, como um eunuco...

Quase sempre os pais assumem posicionamentos paradoxais, querem e lutam pela felicidade dos filhos, mas, sem dúvida alguma às vezes os pais se tornam fatores agravantes e dificultadores ao crescimento emocional dos filhos em direção à autonomia Eles se emaranham nas próprias expectativas de como seus filhos deveriam ser criados. E, em tais casos, suas concepções estão distantes das reais possibilidades de um viver irmanado à felicidade. O arcabouço do relacionamento entre pais e filhos - os mitos e as dificuldades pessoais do pais - apontado por Maldonado (1986, pag.14) , deve ser considerado e compreendido pelo terapeuta. A compreensão do terapeuta em relação a esse arcabouço poderá ser compartilhada com os pais, embora Axline não considere essencial ao atendimento infantil (1947, p.81). Mas Minuchin (10) nos lembra "como podemos sentir dor num lugar quando o verdadeiro problema está num outro lugar?" (1993, p. 138). Mas qual o papel dos pais ? Eles não deveriam ser guardiães ? Tal como nesta tela de Monet O Jardim de Monet em Vétheuil, 1881 , os pais ficando mais próximos da casa, um porto seguro para eles próprios e para a prole, incentivando o filho, pouco a pouco, a se afastar da segurança da casa e da proteção dos pais e trocá-las por atitudes de auto cuidado... Guardiães acompanhando o movimento de idas e vindas do filho, incentivando-o a trilhar a própria trajetória... Acompanhando o movimento da criança com alma de artista, pronto a decidir e planejar o que fazer, pincelada após pincelada, ou movimento após movimento... Incluir nestas decisões a própria história pessoal e os anseios das almas que se interconectam, a do filho, a da mãe, a do pai e das pessoas da convivência da família como um todo.

Serão os pais os carcereiros dos próprios filhos, ou os prisioneiros das concepções emaranhadas sobre a vida ?

O momento de recebimento dos pais é, para mim, como estar neste Campo de Papoulas perto de Vétheuil , Monet, 1879. É estar espacialmente distante, e tendo às nossa costas a civilização/educação, representada pela cidadezinha ao fundo. Distante do corpo, mas ao alcance dos olhos... É estar dentro de um campo de papoulas, como no momento do frescor da manhã, em que uma brisa roça o nosso corpo como se fossem carícias, e juntos apanhamos as flores formando ramalhetes a florir e enfeitar o nosso dia a dia...

Os pais quando solicitam a ajuda de um terapeuta estão sofrendo duplamente, se sentem impotentes por não saberem solucionar o problema do filho, se sentem fracassados por não saberem cuidar do filho-problema. Trabalhar junto com os pais inclui esclarecê-los sobre as tarefas e as funções parentais, mas também é vislumbrar para eles as possibilidades de se tornarem potentes para cuidar do filho de um modo mais amoroso. O trabalho em conjunto com o terapeuta, de colher papoulas, lembra os pais dos perigos de ficarem apenas nas reclamações, na desesperança e na competição, seria como colher ramalhetes de ervas daninhas. Para que eles consigam colher flores, muitas vezes é necessário clarear para eles o autodescobrimento dos próprios recursos para a realização pessoal.

Lembrar os pais de que a queixa que eles trazem do filho é apenas uma metáfora da dor emocional da família, todos sofrem e todos devem estar desejosos de alcançarem a felicidade, mas no momento da busca da ajuda psicológica, eles imaginam que são incapazes para tal empreendimento...

Neste mesmo momento, é muito fácil para alguns pais, transferirem para o ludoterapeuta a responsabilidade de educar e formar a criança. É necessário lembrá-los de que os pais é que são os guardiães da alma, da essência e do sopro de vida de seus filhos, assim como lhes deram a vida do corpo físico devem dar-lhes uma vida emocional, social e espiritual tão alegre e viçosa como uma papoula recém colhida, trazendo nela a umidade e o frescor do orvalho...

Um outro aspecto importante, de que o ludoterapeuta deve se lembrar, é o de que os pais são pessoas que acumulam na família duas funções : a parental e a conjugal. Alertá-los de que, enquanto cônjuges precisam se apoiar, dar segurança emocional um ao outro, verificar o quanto se afirmam em valores di vida próprios a cada individualidaade, assim como o quanto confirmam nestes valore, ou se um confirma para o outro no funcionamento conjugal. Se necessário for, esclarece-los a respeito de seus valores de vida, o que gostam e o que não gostam, o que é possível para cada um e para ambos, o que é viável para a família. Ajudá-los a perceberem com mais clareza e discernimento que aprendizagens querem oferecer aos seus filhos, para que a criança construa um Projeto de Vida incluindo a prosperidade, em todas as suas nuances, material, social, emocional e espiritual. Conscientizá-los de suas características femininas e masculinas, tanto na função parental quanto na conjugal, para que possam se transformar em pessoas mais plenas, plenas de felicidade e contentamento, tal como no momento em que aspiramos o perfume delicado de uma flor.

 

O TERAPEUTA

Ao me encontrar com a Abordagem Centrada e me identificar com sua orientação humanista, passei a considerar como um verdadeiro tesouro a "atitude compreensiva do ser humano e de seu processo e desdobramentos" (Morato, 1987, p.35). Cuidei com verdadeira devoção do meu processo de ser terapeuta, procurando e construindo desdobramentos em dois sentidos, atualizar-me e sem medir esforços, para atingir as transformações necessárias para ser uma terapeuta sensível, tocada pela compaixão humana, para ser compreensiva e amorosa visado promover alento no cliente que sofre, e incansavelmente acompanhando o cliente nas suas buscas e na criação de alternativas para atingir a própria felicidade e plenitude.

Viver a compreensão empática com a criança é como refletir o arco de rosas num lago tranquilo, tal como na tela de Monet , mas considerando também o que Axline (1947, P.77) comentou, é viver uma sensibilidade não diretiva e um constante apreciar do agir da criança . Mas quando cultivamos rosas com estas da tela, roseiras trepadeiras, sabemos que precisamos dar a elas tutores, que têm "como principal função conduzí-las de modo a adquirirem a conformação desejada" para "favorecer a brotação e o florescimento"( Guia das Flores , Editora Abril, p.116). Mas como conciliar diretividade com não diretividade ? Tutoria com parceria?

É essencial para o ludoterapeuta descobrir o sentido da não diretividade, o respeito básico e a confiança de que a criança é possuidora de uma sabedoria interna. Mas esta descoberta não é suficiente, é necessário que o ludoterapeuta também descubra qual a maneira, peculiar às próprias singularidades de ser não diretivo. É preciso descobrir uma não diretividade dinâmica, semelhante ao falso nada fazer do pescador, sempre atento aos menores movimentos e vibrações de seu equipamento (ou de si mesmo - seus sentimentos e impressões, é viver a atitude de atenção positiva incondicional), e ao sentir uma puxada, se mover com rapidez e precisão para fisgar o peixe da auto-compreensão, e entregar este peixe para a criança e ensiná-la a pescar através das próprias iniciativa e criatividade. É vivenciar casa momento com fidelidade à atitude de congruência.

Não dirigir é diferente de não cuidar , é simplesmente não impor , é acompanhar a criança e, ao mesmo tempo, se acompanhar, é estar atento para a criança e para si mesmo. Devendo cada terapeuta ter o compromisso de encontrar o seu próprio estilo, para conseguir esse delicado equilíbrio entre dirigir e orientar os próprios movimentos em direção ao encontro com a criança e, ao mesmo tempo, seguir as direções dos movimentos da criança (Oaklander, 1978, p. ).

A SALA DE LUDO

Quando decidi, em 1982, abandonar as técnicas diretivas para o atendimento clínico de crianças e de seus pais, foi muito confortável para mim encontrar a "recomendação" de Axline : "Ainda que seja desejável ter uma sala mobiliada e isolada para a ludoterapia, tal coisa não é indispensável" (1947, p.69) . Foi um conforto muito grande, pois eu pressentia que faria muito sentido para mim trabalhar com a delicadeza e o respeito humano da não diretividade, mas eu receava a separação da Análise Experimental do Comportamento. Eu tinha acabado de concluir e defender a minha dissertação de mestrado e eu era apontada pela comunidade behaviorista, desde 1971, como um dos baluartes do behaviorismo no Brasil. Era conveniente e confortável que eu pudesse realizar uma "revolução silenciosa" e interna, até que eu sondasse minhas possibilidades em adaptar e permanecer no desconhecido da não diretividade. Em termos práticos, eu poderia tentar mudar minhas atitudes, sem ter que investir em aparatos externos, o que denunciaria as minhas mudanças, antes de afirmá-las para mim mesma. Estranho o que o medo e a culpa fazem com a gente, tinha que fazer verdadeiros rituais de limpeza após o atendimento em uma sala, que não era tão adequada assim para o atendimento lúdico não diretivo.

É recomendável que os materiais lúdicos sejam laváveis e resistentes. O fato dos materiais serem laváveis oferece a garantia para criança de que os objetos da sala, ou do mundo, estão sempre cuidados, mesmo quando os objetos forem danificados pela sujeira, resultante de seu manuseio, o estado de limpeza é recuperável. E ao se remover a sujeira, ou recuperar o estado de limpeza, misturados à remoção da culpa, foram aplicados neles uma atenção especial, a busca de sentimentos mais "limpos", ou mais amorosos, que a limpeza e a boa apresentação da integridade física dos materiais podem desvelar. Além da sensação boa, a ser revelada e transmitida para a criança, de que ela estava sendo esperada com carinho e capricho. O fato de não encontrar rastros, ou dicas, do que outra criança realizou dentro da sala, dá a ela própria a segurança de que o sigilo do seu agir lúdico foi preservado. Além dessas seguranças, a ordem encontrada na sala é um convite sutil para incentivá-la ao compromisso pessoal de se ordenar internamente e externamente.

A resistência do material lúdico, traz à criança a oportunidade de vivenciar a solidez dos objetos com que se relaciona, ela poderá ousar ser descuidada sem que o brinquedo/objeto se quebre, livrando-se da culpabilização de ser uma pessoa destrutiva. A firmeza dos brinquedos lhe oferece a oportunidade de viver ousadias, exercitando o seu agir na característica masculina de buscar recursos no mundo externo. A resistência do material mostra à criança que a sala abarca, ou tem continência para acolher, tanto as ações delicadas quanto as bruscas. Mesmo quando o material lúdico não oferecer a resistência necessária, para se preservar íntegro perante a força violenta, descoordenada ou destrutiva da criança, a reposição do material quebrado por um novo e íntegro, idêntico ou semelhante ao destruído, oferecera à criança a oportunidade de vivenciar a regeneração daquilo que foi destruído e a abundância e fartura de recursos do mundo externo. A sala oferece estabilidade de recursos, estabilidade da provisão de recursos externos, favorecendo que a criança viva com firmeza a ousadia (característica masculina), a continência (característica feminina) e as infinitas possibilidades que a Vida oferece de fortalecer as ligações com a própria Vida, reafirmando a convicção no sopro de vida...

A previsibilidade de onde encontrar cada material pertencente à sala, transmite à criança a segurança de encontrar controle sobre o atendimento de suas demandas. A sala, ou o mundo nela representado, poderá oferecer condições para prover suas necessidades, sejam elas quais forem e ela, criança escolherá o momento que o provimento será realizado. É uma mensagem de esperança para a criança, de que, mesmo que seus pais tenham falhado para proverem as necessidades dela, a Vida, ou o mundo, poderá oferecer oportunidades para que suas necessidades sejam atendidas por ela própria...

A acessibilidade do material permite que a criança escolha por ela mesma, qual o brinquedo que deseja manusear. Ela não precisa forçosamente depender do terapeuta, favorecendo-se o aprendizado de relações sadias de dependência. Ela pedirá ajuda ao terapeuta para pegar um objeto, mais movida pela necessidade de compartilhar, do que pela sua pequenez e incapacidade física para alcançar os brinquedos/recursos desejados em cada momento. A acessibilidade do material também simboliza a existência de possibilidades, ou aberturas, de que toda e qualquer relação é verdadeira e é aceitável, por princípio.

Acrescentar continuamente objetos novos na sala é uma forma rica e generosa do terapeuta mostrar fidelidade às tendências realizadora e formativa. O terapeuta também é um ser pronto e inacabado, que constantemente busca evoluir seu modo de estar no mundo (Rogers, 1980, p. )

A sala de ludo que eu gosto de trabalhar é uma sala aberta, não apenas porque os brinquedos estão visíveis aos olhos físicos de qualquer observador, ou estão acessíveis ao tamanho físico de qualquer criança, mas devido à crença de que os objetos, lúdicos ou não, estão no mundo e estão disponíveis para a maioria das pessoas. Quando nos movimentamos em direção a eles, usando a nossa energia masculina, eles se revelam. Ao acolhe-los e abarcá-los, usando a nossa energia feminina , podemos manuseá-los construindo então a oportunidade de apreende-los e de viver o desvelamento dos seus significados, oriundos na própria experiência trazidos pela intenção de se entrar em contato com e se relacionar com os objetos. É um movimento oscilante entre o apego feminino e o desapego masculino, é um contínuo buscar de recursos e sustentáculos, ora no mundo externo, ora no mundo interno, tal como o movimento das ondas do mar, ou do balançar de uma rede ou do embalar de braços acolhedores...

Gostaria agora de mostrar algumas salas de ludo e os materiais que costumo trabalhar com as crianças.

O BRINCAR TERAPÊUTICO

 

Quando em 1987 eu conheci o livro A Natureza Anímica da Criança, de Caroline von Heydebrand, e me deparei com a frase "Brincar é tão importante para o desenvolvimento da criança que nenhum educador deveria admitir que uma criança não brincasse ou só o fizesse em escala reduzida" (p. 51), encontrei então mais do que uma explicação e justificativa para corroborar com as minhas concepções. Foi um momento de reconhecimento e gratidão para com minha intuição, que me ajudou a construir uma rotina, para a infância de minhas filhas e para meus clientes crianças, que viabilizava a livre expressão de suas fantasias e a energia criadora de cada um deles, plasmada respeitosamente à energia das outras pessoas e da Natureza, que os circundavam.

Segundo Heydebrand (1959), a vontade da criança, aquilo que a leva a decidir se age ou não, escolhendo e selecionando o seu agir de acordo com seus anseios, é uma "vontade cheia de emoções....é sempre um sentir .... vivencia, nebulosamente as forças do porvir .... é um sentir abrangente .... por ter a fantasia ainda tudo o que fazer .... o estado natural da criança é aquele que, nos adultos, constitui a exceção." (p.50-51) A criança brinca , não para atingir fins utilitários, mas para manifestar a sua própria dinâmica e a sua incrível capacidade de, através de sua sensibilidade, se imantar à tudo que a rodeia e, com isso, fecundar a sua imaginação para vitalizar a sua capacidade de estar ligada a fontes de vida. Seria como vivificar a sua capacidade inata para se manter e se preservar viva e preservar-se na vida. Em contraste com os adultos, que parecem Ter perdido, de tão distante que se encontram, da simplicidade desta sabedoria : fecundar e vitalizar a própria capacidade de estar vinculado a fontes de Vida !

O brincar é uma atividade que a criança cria e desenvolve com qualquer objeto, com o qual e no qual projeta seus pensamentos, seus sentimentos e suas percepções. Para manifestar e expressar as suas projeções a criança cria ações motoras, dirigidas para o(um) objeto, dando-lhe movimento, ou seja, vida. Ao dar vigor ao objeto inanimado ela o anima com a vida de seus sentimentos, a criança pratica a própria capacidade de oferecer sopros de vida, de conferir alma e essência a objetos e fatos. Assim agindo em suas brincadeiras, ao perceber a confirmação de seu potencial criativo e vivificador, ela conhece e re-conhece seus recursos internos, ela se revigora, seja na função de flor, seja na função de espinho.. Quando uma criança cria ações dirigidas a brinquedos ela busca o prazer de brincar, conhecendo, através do brincar, as suas reais possibilidades para concretizar com o brinquedo aquilo que ela imaginou. Ao observar as consequencias das suas ações lúdicas ela sustenta o planejamento de como prosseguir na brincadeira, pela realidade criada com o seu agir. Ela traz o que foi criado no plano imaterial das idéias e dos sentimentos, para o plano da concretude e da realidade física. Deste modo, além de conhecer o próprio potencial, a criança pode conhecer e reconhecer os próprios recursos para manifestar seu potencial. Ao reconhecer seus recursos, a criança vai adquirindo discernimento daquilo que pode e que não pode realizar, desenvolvendo noções de limites e possibilidades quanto à maneira, possível à realidade de cada momento, para configurar e reconfigurar as suas ações. Com isso, poderá reorganizar sua maneira de relacionar-se consigo própria e com o mundo externo, dirigindo o seu agir para ser bem sucedida e competente para realizar o realizar-se, aumentando suas chances para se sentir mais adequada, mais aceita, melhor compreendida, mais amada e mais feliz ! Ela vai estruturando o próprio travejamento com suas vigas/recursos, e assim organizando os próprios sustentáculos de um viver autônomo...

Os objetos lúdicos podem ser concretos (brinquedos, lápis, tesoura, etc) ou abstratos e imateriais (pensamentos, sentimentos, impressões) que poderão ser manifestados em forma de brincadeiras, em palavras escritas ou faladas, ou em desenhos ou qualquer tipo de produção plástica. Brincar serve como uma linguagem, que transmite informações sem, necessariamente, utilizar palavras ( Axline, 1947, p.184). Uma linguagem que precisa ser recebida com sensibilidade, com empatia.

A atividade que a criança cria e desenvolve, pode ser realizada isoladamente ou em conjunto, ou seja, compartilhada com outra pessoa, seja ela criança ou adulto (terapeuta, pais, professores). Tal atividade pode ser "paralela" à atividade da outra pessoa, quando não existe o encontro, a complementação do movimento de uma pessoa com o movimento, ou ações, da outra pessoa.

Entre cada unidade de ação, que constitui o brincar, existe uma sequência temporal, que poderá interligar o agir atual com uma ação passada ou futura. As interligações poderão estar facilmente identificáveis ou não, às vezes sendo fácil estabelecer conexões lógicas, outras vezes intuitivas, às vezes com segurança e lucidez, outras vezes com nebulosidade... Mas o mais importante é o desejo sincer de acompanhar a criança, mesmo que seja em sua confusão...

Uma das funções do brincar é tornar visível, ou manifesto, aquilo que estava oculto, ou latente, até mesmo para a própria criança. Cabe ao terapeuta construir ações, ou intervenções, que integrem e esclareçam os possíveis significados das interconexões percebidas por ele e vividas pela criança, com a intenção de tornar conhecido o desconhecido. Tudo é relativo, cambiável e reorganizável tal como os desenhos de um calidoscópio (Axline, 1947, p. 23) , e o terapeuta age como um transcodificador, ou um intérprete de múltiplas linguagens, a linguagem motora, a linguagem falada, a linguagem lúdica, a linguagem pictórica, a linguagem dos sentimentos... É como contemplar e vivenciar um amanhecer, em que mansamente a claridade do sol vai iluminando o mundo, os contornos imprecisos devido à escuridão da noite, vão se tornando mais e mais nítidos, melhor delineados pela luz da compreensão... Até que o calor do sol inunde o mundo, aquecendo com confiança corações amedrontados e entristecidos...

 

 

 

 

 

O PROCESSO TERAPEUTICO

A palavra processo traz a idéia de "seguimento, curso, de ir por diante ; sucessão de estados ou de mudanças'(Ferreira, 1994, p.530). A palavra terapêutico traz a idéia de "aliviar ou curar doenças" (Ferreira, 1994, p.631). O processo terapêutico com uma criança se constitui em um acompanhamento, em que a criança vive a possibilidade, de um modo cada vez mais pleno, de expressar a sua potencialidade em harmonia com a tendência direcional ao crescimento pessoal.

O fato da criança estar precisando de cuidados psicológicos, faz com que seus pais tenham a expectativa de que o ludoterapeuta trate de e cure a criança.

A palavra tratar traz as idéias de cuidar da própria saúde , de sustentar-se , de manter relações entre si. É um termo muito ligado à prática médica, onde o profissional diagnostica e prescreve receitas para curar um paciente, cabendo à pessoa que sofre uma atitude mais passiva, de se submeter às prescrições médicas. É uma maneira bastante autoritária de curar, onde o poder de curar permanece centralizado na figura do médico. A expectativa dos pais que o psicólogo proceda como um médico, pode se constituir em um movimento para organizar a relação e o processo terapêuticos com as características de autoritarismo e imparcialidade. Embora a criança manifeste uma atitude que se constitui um problema para os pais, o relacionamento entre eles, pais e criança, é que está em desarmonia com a tendência direcional de realizações construtivas.

A prática psicológica, orientada pelos princípios da Abordagem Centrada na Pessoa não é autoritária, e nem é dicotomizada. O problema nunca está localizado em um único indivíduo, assim como o poder de cura não está localizado em um único indivíduo. O poder de "cura", encontra-se ora nas intervenções do profissional, ora nas expressões da criança, ora na relação que se estabelece entre as pessoas : criança-ludoterapeuta, criança-irmão(ã), mãe-criança, etc. Embora o profissional de Psicologia é quem está mais comprometido em preservar em sua tarefa perceptiva, a experiência sensorial e sensível do mundo-vivido no relacionamento com a criança.

Cabe ao Psicólogo atender ou tratar uma pessoa ? A palavra atender traz as idéias de "dar ou prestar atenção ; tomar em consideração, levar em conta, ter em vista, considerar ; atentar, observar ; acolher, receber com atenção ou cortesia" (Ferreira, 1994, p.70). Quando o ludoterapeuta reconhece que ele não trata a criança e nem a cura, ele está mais centrado, ou em contato com a força dinâmica e criadora da relação terapêutica. Para exercer o seu agir terapêutico, ou se exercer nas funções de transcodificador de linguagens (ou um intérprete de múltiplas linguagens, a linguagem motora, a linguagem falada, a linguagem lúdica, a linguagem pictórica, a linguagem dos sentimentos), basta orientar seu agir em direção das atitudes facilitadoras conceituadas por Rogers : escuta empática , consideração ou atenção positiva incondicional e congruência ou autenticidade.

Em qualquer relação estabelecida por duas , ou mais, pessoas, a força dinâmica criadora fica instalada num movimento de mão dupla. Portanto, na relação terapêutica é necessário que as atitudes de empatia, de atenção positiva e de congruência, faça parte tanto do agir do terapeuta, quanto no agir da criança, para que a "cura", ou a harmonização com a tendência realizadora construtiva, se manifeste na Vida da criança. Para esta finalidade, é suficiente que, no início do processo terapêutico, estas tres atitudes estejam presentes no agir do terapeuta.

O processo terapêutico para mim, pode ser muito bem representado por esta tela de Lazzarini, intitulada por mim como "Buscando Tesouros" . Neste cenário temos um dia escuro, em que a claridade do sol ainda não se manifesta em todo o seu esplendor. Mas as duas pessoas estão mexendo no chão, se dedicando laboriosamente laboriosamente nesta atividade, como se estivessem buscando um tesouro, o tesouro do auto-conhecimento! Mas se prestarmos atenção na flores amarelas, encontramos uma mensagem de esperança. Como pode uma árvore tão seca florescer flores tão lindas e tão reluzentes?

Por isto considero o agir terapêutico como um atender, e não um tratar. A consideração e a atenção que conseguirmos sinceramente expressar e vivenciar, tanto pela pessoa da criança, quanto pela nossa própria pessoa, me autoriza a firmar que atender é achegar com aconchego ! É só abordarmos e nos aproximarmos da criança com conforto, aproximar-se com consideração e respeito, compor uma ligação de proteção e amparo mútuos, transformar a sal de ludo em um refúgio, em que criança e terapeuta podem ser eles mesmos.

UM TRABALHO PRECURSOR

A Ludoterapia Centrada teve como grande precursora Virgínia Axline. Seus livros Dibs. Em busca de si mesmo , e Ludoterapia. A dinâmica interior da criança , foram marcantes para que esta maneira tão humana de lidar com a criança florescesse e frutificasse.

Em 1946, ao publicar o livro Ludoterapia, Axline sistematizou o agir terapêutico em 8 princípios básicos :

  1. rapport : uma preocupação em manifestar a consideração e o respeito pela criança de modo a realizar uma aproximação suave e sensível, permitir tocar os sentimentos da criança e ser tocado por ela. Este contato me lembra do toque das borboletas nas pétalas delicadas das flores . Voces já prestaram atenção como uma borboleta se aproxima de uma flor, pousa nele, com precisão retira seu néctar e, ao se separar da flor, se impulsiona nela, fazendo com que a flor balance como se estivesse sob o efeito de uma suave brisa, ou sob o efeito do acalanto de braços maternos.
  2. Aceitar a criança como ela é : aceitar é considerar, é acolher a criança da maneira que ela pode e consegue se manifestar. Aceitar não é concordar com tudo o que a criança faz, é simplesmente prestar atenção no que a criança manifesta e seguirmos a nossa própria curiosidade para descobrimos as intenções da manifestação da criança. [ Monet, 1886 , Mulher olhando à direita ] É como estarmos numa colina e nos entregarmos à força do vento, sem nos ocuparmos de segurarmos as roupas, a echarpe...
  3. Permissividade no relacionamento : é aprender a ser livre a expressar toda e qualquer ação, pensamento e sentimento. As possibilidades da livre expressão são configuradas pela aprendizagem do uso da liberdade com responsabilidade, cuidando e protegendo que o agir, tanto da criança quanto do ludoterapeuta não firam a tranquilidade e a segurança da relação, não ameace a viabilidade da relação ser um refúgio seguro. [ Fig. Monet , Nenúfares , 1904 ]. É como estar neste tranquilo lago de nenúfares, é permitir que estes nenúfares se agrupem ou se isolem, sem interferir no movimento deles.
  4. Identificar e refletir sentimentos : É uma escuta ativa e empática, é a livre expressão do terapeuta com a intenção de promover na criança o autoconhecimento, que lhe permitirá amadurecer afetivamente e decidir por ela mesma. [ Fig. Monet , O Rio, 1868 ]. "Neste quadro, Monet atribui pela primeira vez um papel importante para os reflexos , pois dão-lhe a oportunidade particular de ligar a idéia artística com o realmente percebido. O modelo real transforma-se, pelos reflexos, em formas de cores abstratas" (Sagner-Düchting, 1990). A reflexão de sentimentos é um intervenção criada pelo terapeuta, composta pela imagem construída e abstraída do agir da criança. A reflexão, tal como no quadro de Monet, é desencadeada e sustentada pela observação do "modelo real", ou seja aquilo que a criança efetivamente e objetivamente fez, mas o terapeuta inclui a própria impressão, ou a interpretação da intenção do agir da criança.
  5. Profundo respeito pela capacidade da criança : É a crença inabalável na sabedoria interna da criança. É um profundo e sincero respeito pela capacidade de escolhas que a criança manifestar em cada momento. [ Fig. : Monet, A Ponte Japonesa em Tom Verde e Fig.: A Ponte Japonesa , 1900 ] .É como contemplarmos as inúmeras Pontes Japonesas criadas por Monet, aceitando que ora nelas predominassem os tons verdes, os tons azuis ou outras cores...
  6. A criança indica o caminho : O terapeuta permite que a criança exerça e se exercite na capacidade de escolher e tomar decisões. O terapeuta acompanha, seja quando a criança escolhe caminhar na superficialidade e objetividade [ Fig.: Foto da ponte japonesa ] , seja quando ela escolhe caminhar em uma ponte bastante distante da realidade externa [ Fig. Monet , A Ponte Japonesa , 1918-1924 ] . Ao acompanhar a criança, o terapeuta também deve se acompanhar e se ouvir, ou ouvir a própria intuição, para encontrar o delicado equilíbrio ente acompanhar e ser acompanhado.
  7. O processo é gradativo : Ao reconhecer que a tendência direcional ao crescimento pessoa, é um processo contínuo e gradual, o terapeuta deve zelar pelo ritmo da criança, sem apresá-lo ou retardá-lo. É como estarmos em um caminho ladeado de flores [Fig. : Monet , Canteiro de Íris no Jardim do Artista , 1900 ] . Para que nos apressarmos em um refúgio que podemos desgustar dos detalhes do florescimento, aproveitando o aroma do perfume das flores ? Mas também não podemos nos deter, senão o caminho não será trilhado.
  8. Os limites da realidade externa : Cabe ao terapeuta zelar que o agir da criança, e o próprio agir, permaneçam dentro, ou se fundamentem na realidade objetiva e externa. Assim facilitará o aprendizado da criança na liberdade com responsabilidade, ajudando a criança a discernir entre possibilidade e viabilidade. Recomendo aos ludoterapeutas, ao apresentarem a condição de liberdade da sala, que eles apresentem os três "não pode" : machucar-se, machucar o T, machucar a sala. E, assim, facilitar que o relacionamento se processe fundamentado no respeito e na liberdade.

Com estes pontos norteadores a minha crença no atendimento humanista tem se fortalecido, a ponto de poder afirmar que o atendimento psicológico é um achegar com aconchego...

Promover em uma criança o seu bem estar e o seu compromisso em se responsabilizar pelo próprio bem estar e pelo próprio crescimento pessoal, é , sem dúvida alguma, promover a condição de humanidade em uma pessoa, é contribuir para recuperarmos a dignidade humana de ser e estar no mundo.

Por mais difícil que seja um atendimento, acho que vale a pena nos apoiarmos na mensagem da flor de lótus [Pagina Principal] . A flor de Lotus esteve ausente do planeta terra por muito séculos. Mas esteve ausente apenas na forma de flor, ela estava presente na forma de sementes. Na década de 1950, um biólogo japones, encontrou umas sementes consideradas fossilizados, mas ao ouvir a sua intuição, resolveu considerar apenas a possibilidade de fossilização. Lembrou-se de que tais sementes forma encontradas em um terreno, que outro fora pântano e decidiu replicar, experimentalmente, as condições de pântano em um laboratório e qual não foi seu agradável espanto, as sementes germinaram! E graças à sabedoria deste cientista, que infelizmente não sei o nome,que ousou se aproximar da atitude da incerteza, hoje o mundo ainda usufrui desta belíssima flor, que, em tempos mais antigos da Humanidade, representou a busca pela pureza espiritual.

E que é trabalhar com amor ?

(Kalil Gibran)

É tecer o tecido com fios desfiados

de vosso próprio coração,

como se vosso bem amado fosse usar esse tecido.

É construir uma casa com afeição,

como se vosso bem amado fosse habitar essa casa.

É semear as sementes com ternura

e recolher a colheita com alegria,

como vosso bem amado fosse comer-lhe os frutos.

É por em todas as coisas que fazeis

um pouco de vossa alma...

Querido(a) leitor(a),

Considero ainda este trabalho incompleto, tal como eu, sempre buscando recursos para me complementar. Obrigada !

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. AXLINE , V. (1947) Ludoterapia. A dinamica interior da criança , 1984-2ª edição.
  2. CORRÊA NAVARRO , D. L. (1989) Experimentando um Atelie de Arteterapia com crianças institucionalizadas em creche , apresentado durante o I Forum Internacional da ACP, Paulo de Frontin (RJ) Brasil.
  3. CORRÊA NAVARRO , D. L. (1990) Arteterapia e a Comunicação Terapêutica , não publicado.
  4. CORRÊA , D. L. (1992) revista da UNIFRAN
  5. CORRÊA , D. L. (1997) Ser Terapeuta com e através da ACP : Alguns comentários sobre as funções parentais e os comportamentos biológicos , a ser apresentado durante o 7º ENACP, Beberibe (CE).
  6. FERREIRA (1994) Novo Dicionário Básico da Lingua Portuguesa ,
  7. GUIMARÃES , (1996)
  8. HAUSER , A. (1969, III) História Social de la Literatura y el Arte. Madrid : Artes Gráficas Benzal.
  9. HEYDEBRAND , C. (1959) A Natureza Anímica da Criança , Ed. Antroposófica , 1983.
  10. MALDONADO ,M. T. (1981) Comunicação entre Pais e Filhos. A linguagem do sentir , 1986.
  11. (10) MINUCHIN , S. A Cura da Família

     

  12. MORATO, H. T. P. (1987) ACP : teoria ou atitude na relação de ajuda ? , In ROSENBERG (Org.) Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa , SP :EPU.
  13. ROGERS , C. R. Um Jeito de Ser
  14. SAGNER-DÜCHTING , K. Claude Monet. Uma festa para os Olhos. Trad.: casa da Línguas, Ltda. , Editora Taschen , 1990.